Pequeno compêndio dos reveses do governo

A vida não anda fácil para o governo. As derrotas sofridas nos últimos dias pelo presidente Jair Bolsonaro e seus aliados reforçam a percepção de que a articulação política do Planalto é nula. Muitos dos eventos têm apenas caráter simbólico, mas alguns deles podem ter impacto no dia a dia da máquina administrativa.

. A Comissão Especial da MP 870/19, que reestrutura o Executivo, retirou o COAF do ministério da Justiça e devolveu-o à pasta da Economia. A medida, que desagradou ao Planalto e deverá ser mantida pelos plenários da Câmara e do Senado, enfraquece o ministro Sérgio Moro, que já vinha acumulando derrotas em sua função.

. Ainda sobre a MP 870/19, é real o risco de ela perder a validade. O prazo para votação é 3 de junho. Nessa semana o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ), estará no exterior e muito dificilmente a matéria será pautada. Assim, restariam apenas duas semanas para a aprovação da MP. A eventual caducidade da matéria geraria grande dor de cabeça ao governo, que seria obrigado a recompor a estrutura da Esplanada nos moldes do governo Temer, com 29 ministérios.

. Ganhou força o embate PSL-Centrão-Maia. O presidente da Câmara havia indicado Alexandre Baldy, integrante do Centrão, para o ministério das Cidades, pasta que será recriada por conta de acordo firmado entre governo e Centrão. O PSL e a família Bolsonaro questionaram o nome, o que ampliou a divisão entre os grupos.

. A disputa entre os militares e o núcleo ideológico do governo aumentou nos últimos dias. O guru do presidente, Olavo de Carvalho, criticou duramente alguns nomes importantes do Planalto, no que foi rechaçado com veemência pela ala militar do governo. O ambiente é de autofagia.

. Também o decreto presidencial que flexibiliza o porte de armas para diversas categorias profissionais corre riscos na Câmara. Deputados dos mais diversos partidos são contrários à medida.

. Os caminhoneiros emitem sinais cada vez mais fortes de que uma nova paralisação poderá ocorrer em breve. Até o momento, o Planalto não conseguiu atender às demandas nem encaminhar uma negociação mínima.

. No quesito opinião pública, as notícias igualmente não são boas. A última rodada do levantamento XP/Ipespe, divulgada na sexta-feira, 10 de maio, mostra que a avaliação positiva do presidente caiu de 40% para 35%, enquanto a negativa saltou de 20% para 31%. Sem resolver o imbróglio político e com a economia patinando, o quadro atual tende a piorar.

. Em resposta aos cortes anunciados para a educação, professores, alunos e pesquisadores deverão realizar manifestações em todo o Brasil no próximo dia 15. Será o primeiro grande teste para o governo Bolsonaro. Caso o movimento obtenha êxito, manifestações similares tenderão a se repetir em breve e ganhar corpo.

Considerações finais: em seu quinto mês de mandato, o presidente Bolsonaro é pressionado por todos os lados. O Planalto precisa unificar seu discurso, melhorar a comunicação e chamar todos ao diálogo. Do contrário, as nuvens no horizonte ficarão cada vez mais carregadas.

André Pereira César
Cientista Político

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