Peças em movimento

Em meio ao agravamento da crise gerada pelo novo Coronavírus, o Planalto ainda emite sinais tímidos quanto ao gerenciamento da questão. Com isso, governadores e o Congresso Nacional ocupam espaço e mandam importantes sinais políticos para a população e, em especial, para o próprio presidente Jair Bolsonaro.

No Distrito Federal, o governador Ibaneis Rocha (MDB) decidiu suspender aulas e eventos públicos. Em São Paulo, João Dória (PSDB) cogita da possibilidade de suspender as aulas na USP, após um aluno ter sido diagnosticado com a doença. Antes, o tucano já havia se antecipado ao criar um centro de contingência no estado, para enfrentar a propagação do vírus.

No âmbito do Congresso Nacional, sobram críticas às tímidas ações do Planalto. Os parlamentares cobram do governo federal medidas emergenciais contra a crise, que ainda não se materializaram.

Paralelamente, as relações Executivo-Legislativo seguem esgarçadas. Deputados e senadores derrubaram o veto presidencial a um projeto de lei que eleva o limite de renda para a concessão do Benefício de Prestação Continuada (BPC). A decisão, segundo cálculos do governo, terá impacto de R$ 20 bilhões anuais, com a ampliação do benefício assistencial à população de baixa renda. Além disso, foi aprovado em comissão, à revelia do presidente Bolsonaro, apesar dele mesmo ser o autor, o projeto que entrega aos parlamentares o controle de R$ 15 bilhões do Orçamento. Notícias ruins para o Planalto em tempos de turbulência.

Governo e equipe econômica, por sua vez, comportam-se como autistas em meio à crise. O ministro da Economia, Paulo Guedes, segue repetindo o mantra de “aprovar as reformas” para retomar o crescimento. Nada de medidas emergenciais, muito menos de humildade.

Ressalve-se aqui a atuação do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Na contramão do que vem sendo aplicado pelo governo, ele e sua equipe enfrentam a crise com firmeza, segurança e transparência. São grandes as chances do ministro sair politicamente fortalecido ao final desse processo.

Não há vácuo na política, eis o velho chavão. Caso o presidente Bolsonaro siga fazendo pouco caso da situação geral, como se viu em recente declaração de que a crise econômica e a COVID19 “não são tudo isso”, ele correrá o risco de ser atropelado pelos fatos. Poderá entrar para a história como apenas mais um coadjuvante em meio a outros protagonistas.

André Pereira César
Cientista Político

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