Os riscos para as candidaturas Lula e Bolsonaro

Os números da mais recente pesquisa do DataFolha reforçaram a percepção de que a polarização entre o ex-presidente Lula (PT) e o atual mandatário, Jair Bolsonaro (PL), está consolidada. Aos demais postulantes restará o papel de coadjuvantes, sem grandes perspectivas de êxito. Assim, olhando para os dois principais nomes na disputa, avaliaremos os principais riscos e desafios que ambos terão que enfrentar nos próximos meses.

Lula

. “Antipetismo”

A rigor, o chamado “antipetismo” é um fenômeno que existe desde a fundação do partido, no início da década de oitenta passada. O movimento ganhou força no governo de Dilma Rousseff, a partir das manifestações de junho de 2013 e, hoje, norteia boa parte das ações dos eleitores bolsonaristas, mas não só. Setores da classe média, muito mais por questões ideológicas do que propriamente econômicas, igualmente têm na legenda um alvo, e esse sentimento ganhará tração ao longo da campanha eleitoral.

. Problemas nos palanques estaduais

As negociações seguem em curso, mas será inevitável que, em alguns estados, a candidatura Lula enfrente dificuldades para manter unidos os aliados. Esse é o caso, por exemplo, de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, onde o PT e o PSB (partido do vice, Geraldo Alckmin) não se entendem sobre a formação das chapas. No Espírito Santo os petistas fazem oposição ao governador Renato Casagrande (PSB) e as negociações estão emperradas. Mesmo em São Paulo, os aliados trabalham para que o ex-governador Márcio França (PSB) desista da disputa ao Palácio dos Bandeirantes, abrindo caminho para Fernando Haddad (PT). O quadro é complexo.

. O mercado

O mercado sempre manteve um pé atrás em relação a Lula e ao PT – assim como a classe média em geral age muito mais por questões ideológicas do que propriamente econômicas –, e não está sendo diferente dessa vez. Há muitas restrições ao nome do ex-presidente, que foram reforçadas após recentes declarações do petista, que se disse favorável à revisão da reforma trabalhista e do teto de gastos, duas medidas que contam com forte apoio do mundo das finanças. Não por acaso, nos últimos dias Lula tem ampliado o contato com o empresariado, na tentativa de ao menos minimizar as críticas. Também o esboço do plano de governo, divulgado há poucos dias, aborda com mais cuidado os temas mais espinhosos na seara da economia.

Bolsonaro

. O “caso MEC” e a corrupção

As prisões do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro e de pastores ligados a ele acenderam um sinal de alerta no governo. Acusado de corrupção, o antigo titular da pasta acabou por expor o presidente da República, que teria avisado da iminente ação da Polícia Federal. Aqui, há dois problemas imediatos para Bolsonaro - de um lado, ganha força a instalação de uma CPI do MEC no Senado Federal, que pode causar estrago na imagem presidencial na campanha; além disso, o discurso de “corrupção zero” na atual administração cai por terra, abrindo um flanco para a oposição explorar.

. Economia, inflação, combustíveis

A escalada de preços, em especial de combustíveis, alimentos e aluguéis, atingiu toda a população. A reação do governo e da equipe econômica, por seu lado, está sendo errática, passando a impressão de absoluta falta de projetos e um claro amadorismo (o caso da Petrobras é o exemplo mais acabado disso). Economia é um tema central em campanhas e não será diferente dessa vez. Uma urgente virada de chave se faz necessária. Do contrário, a situação atual pode levar Bolsonaro a uma fragorosa derrota.

. A incerteza dos aliados

Os aliados do presidente, em especial o núcleo central do Centrão (PL, PP e Republicanos), ainda estão firmes a seu lado, mas o quadro pode mudar caso as pesquisas mantenham o favoritismo de Lula. A depender da evolução dos fatos, projetos políticos pessoais de algumas lideranças poderão ganhar proeminência e, desse modo, gerar um progressivo descolamento em relação a Bolsonaro - em especial nas regiões Norte e Nordeste, mais simpáticas ao petista. Nada garante a manutenção do apoio ao titular do Planalto até o final da campanha.

Considerações finais

Como se vê, há riscos claros no horizonte dos dois principais nomes na sucessão presidencial. A margem de erro para os dois é reduzida e, no limite, o pleito pode ser definido nos detalhes e ainda no primeiro turno.

André Pereira César
Cientista Político

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