O verão da discórdia

Entre outras consequências, a soltura do ex-presidente Lula gerou um efeito importante: a volta da polarização política em todo o país. Aquilo que aparentemente perdia fôlego, a disputa entre grupos antagônicos, voltou com força total nesse final de ano. O verão da discórdia se desenha no horizonte.

Apenas para relembrar, o processo de polarização da sociedade brasileira, iniciado nas manifestações de rua de 2013, atingiu seu ápice nas eleições de 2018. Com o advento das redes sociais, tal fenômeno marcou a vitória de Jair Bolsonaro no pleito. Após isso, acreditava-se que o ambiente retornaria a um patamar de normalidade.

Agora, perto do final de 2019, a situação retornou ao estágio do ano passado. Os discursos do ex-presidente, tão logo solto, deram o tom - um contundente ataque às políticas bolsonaristas e aos seus símbolos, como o ministro da Justiça, Sérgio Moro, um dos principais algozes de Lula. Do outro lado, os aliados de Bolsonaro respondem da mesma forma, criticando duramente os petistas.

Tal ambiente tem impacto no dia a dia da sociedade. No entanto, as consequências vão muito além - o próprio Congresso Nacional tem assistido a embates duros entre governo e oposição, enfrentamentos esses nunca vistos desde a redemocratização, na segunda metade da década de oitenta. A democracia só tem a perder com isso.

A própria agenda governista, pautada em preceitos liberais bem ao gosto do ministro da Economia, Paulo Guedes, sente os efeitos dessa realidade. A discussão em torno de temas fundamentais para o país, como a reforma do Estado e a reforma tributária, fica em segundo plano. O Fla-Flu ideológico começa novamente a comandar o debate.

Por fim, o quadro geral tende a desembocar nas eleições municipais de 2020. Em tese, questões locais deveriam dar o norte das discussões nessa campanha, mas a polarização se fará sentir. O saldo final disso é incerto.

Em suma, o Brasil não consegue sair do ciclo vicioso da polarização esquerda-direita. Dentro dessa realidade, o país segue na busca por novos “heróis” - a recente vitória da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo sub-17, em tese um torneio menor e pouco conhecido do grande público, mostra bem isso. O evento mobilizou a nação de maneira quase inédita.

Afinal, qual o limite da polarização política? Ela persistirá para além do próximo verão?

André Pereira César
Cientista Político

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