O PSDB em seu labirinto

Partido que polarizou por anos a disputa política com o PT, tendo ocupado por duas vezes a presidência da República, com bancadas fortes no Congresso Nacional e que governa importantes estados da Federação, o PSDB hoje é uma pálida sombra do passado. O partido perdeu espaço na cena política e, pior, tem à frente um futuro de incertezas. Qual o destino do tucanato?

Em primeiro lugar, os números mostram a desidratação da legenda. No início do século, vinte anos atrás, o PSDB chegou a ter cerca de cem deputados em suas fileiras. Hoje, são 32 os tucanos na Câmara dos Deputados, e a perspectiva para o pleito do próximo ano não é positiva. O partido, que sentiu os efeitos da “nova política” que elegeu o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em 2018, sofre com a falta de renovação de suas lideranças.

Dois fatos ocorridos nos últimos dias reforçam a percepção de que o PSDB está sem rumo. No debate sobre o voto impresso, apesar da orientação contrária, 14 deputados votaram a favor da matéria. Já na discussão sobre a volta das coligações em eleições proporcionais, um retrocesso no sistema eleitoral, 21 deputados foram favoráveis.

O comportamento da bancada é explicado, em parte, pela ação do deputado Aécio Neves (PSDB/MG), hoje o principal nome do partido na Casa. Ele tem atuado nos bastidores em defesa da agenda do presidente Arthur Lira (PP/AL), mesmo que às custas da unidade partidária.

Indo além, Aécio é francamente opositor do governador João Dória, hoje o principal pré-candidato tucano à sucessão presidencial. O deputado age para minar as pretensões do paulista nas prévias que ocorrerão em breve. Vale tudo nessa disputa que, no limite, pode rachar de vez o PSDB.

Em outra frente, a agremiação está prestes a perder um de seus maiores símbolos, o ex- governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, um dos fundadores do tucanato. Insatisfeito com as atuais diretrizes, ele deve migrar para o PSD de Gilberto Kassab para disputar o governo paulista em 2022. Cabe lembrar que, em São Paulo, o PSDB venceu todas as eleições para o governo estadual desde 1994, fato único na cena política. Essa hegemonia está ameaçada.

Por fim, com as antigas lideranças saindo de cena e a ausência de um projeto minimamente consistente, o PSDB caminha para se tornar um ator de pouca relevância no quadro político nacional, assim como tem sido o destino de outras agremiações partidárias ao longo da história. Dado o estado atual do debate político nacional, trata-se de um fato a ser lamentado pela democracia brasileira.

PS. Surpreendeu a muitos o comportamento do líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP/PR), na CPI da Covid. Parlamentar com vasta experiência, ex-ministro da Saúde e colega há tempos de muitos integrantes do colegiado, esperava-se dele uma postura cordata. Não foi o que se viu. Ao atacar duramente as investigações em curso, ele adotou o estilo de Bolsonaro. Barros vestiu a camisa e fez o jogo do Planalto.

André Pereira César
Cientista Político

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