O projeto político de Flávio Dino

“Daqueles governadores de ‘Paraíba’, o pior é o do Maranhão. Não tem que ter nada para esse cara”. A conversa entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro Onyx Lorenzoni (DEM/RS) vazou e foi ao ar para todo o Brasil. No caso, o maranhense citado é o governador Flávio Dino (PCdoB), que ganhou uma propaganda involuntária. Dino só tem a agradecer ao presidente.

Advogado e professor, ex-juiz federal, aos 51 anos de idade, Dino já tem larga experiência política. Foi deputado federal, presidente da Embratur e está em seu segundo mandato de governador.  No início dos anos 2000, presidiu a Associação Nacional de Juízes Federais (Ajufe).

Em primeiro lugar, chama a atenção a força política de Dino em seu estado. Ele derrotou por duas vezes seguidas o grupo de José Sarney, o principal cacique político maranhense, e sua avaliação popular segue em alta.

Tem chamado atenção, porém, a articulação política que o governador vem realizando. Nos últimos tempos, ele visitou algumas vezes o ex-presidente Lula na carceragem em Curitiba. Essa movimentação sempre gera matérias na imprensa em âmbito nacional.

Mais que visitar o petista, ele se reuniu com os também ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e José Sarney, esse último seu grande adversário político. Dino demonstra capacidade de se sentar à mesa e debater com representantes da esquerda à direita do espectro ideológico. Na quadratura atual, poucos têm essa capacidade.

Flávio Dino talvez seja hoje a principal liderança entre os governadores nordestinos. O recém-criado Consórcio Nordeste, com foco no desenvolvimento econômico, social e ambiental, em larga medida foi gerado a partir de ideia do maranhense.

Mesmo afirmando ser cedo para discutir a sucessão presidencial, Dino tem plena noção de que é uma opção para a esquerda em 2022. Mas ele tem de superar alguns obstáculos em seu caminho.

Primeiramente, o PCdoB tem poucas condições de sustentar uma candidatura presidencial consistente. Nesse sentido, não pode ser descartada a possibilidade de o governador mudar de partido - o PSB seria uma alternativa viável.

Além disso, existe aquilo que pode ser chamado de “barreira PT”. O partido de Lula é hegemônico no campo da esquerda e dificilmente aceitará uma alternativa fora de seus quadros. No máximo, cede a vaga de vice, como ocorreu em 2018 (Manuela D’avila, do PCdoB, completando a chapa do petista Fernando Haddad).

Por fim, Dino precisa se tornar efetivamente conhecido no centro-sul do Brasil. Tempo para isso existe, mas é preciso começar desde já uma campanha de divulgação de sua imagem.

Em suma, no momento em que o centro e a direita dão as cartas no debate político, a esquerda, ainda atordoada pela vitória de Jair Bolsonaro em 2018, tem em Flávio Dino um sopro de vitalidade. Resta saber se ele terá condições efetivas de levar seu projeto adiante.

André Pereira César

Cientista Político

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