O outono de Jair Bolsonaro

O outono começou no sábado, 20 de março. Para o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), a nova estação marca o início efetivo de uma fase de pressão extra sobre seu governo. Diferentes setores da sociedade tornam pública a insatisfação sobre os rumos do Planalto, especialmente no que diz respeito à economia e ao combate à pandemia.

Em primeiro lugar, chama a atenção a articulação colocada em movimento por economistas e banqueiros em defesa da vacinação em massa para recuperar a economia. Carta assinada por cerca de quinhentos expoentes da vida pública brasileira, que inclui ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central, questiona a dicotomia entre abrir a economia ou priorizar as vidas no combate à pandemia. Na visão do grupo, Bolsonaro erra na condução do processo, mas ainda haveria espaço para uma reorientação de rota.

O documento, já nas mãos dos chefes dos três Poderes, explicita a insatisfação dos chamados “donos do dinheiro” com relação ao governo. Há razões para imaginar que a confecção e distribuição da carta tenha sido previamente discutida com outros setores - o mundo político, por exemplo. O movimento, assim, pode ser mais amplo.

Falando no universo da política, são cada vez mais claros os sinais de desgaste nas relações entre o neoaliado Centrão e o Planalto. O pano de fundo, claro, é o agravamento da crise da COVID-19, com aumento significativo no número de mortes e o colapso no sistema de saúde. Para piorar o quadro, a indicação do cardiologista Marcelo Queiroga para o ministério da Saúde desagradou o bloco suprapartidário, que defendia outro nome e sentiu-se traído por Bolsonaro.

Cabe aqui repisar que o retorno do ex-presidente Lula ao jogo eleitoral elevou o peso político do Centrão. Seus integrantes têm agora uma alternativa consistente ao titular do Planalto.

Armas não faltam aos parlamentares para colocar em prática a insatisfação com o presidente. Convocação de ministros para falar sobre suas respectivas áreas e deixar de lado a agenda reformista do governo estão entre as opções. O grande trunfo, porém, é a CPI da Covid, hoje nas mãos do presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (DEM/MG), que tenta resistir à pressão de seus pares. A recente morte do senador Major Olímpio (PSL/SP), que defendia a instalação da comissão, jogou gasolina na fogueira.

Todo esse quadro deságua nas pesquisas de opinião pública. O mais recente levantamento do instituto DataFolha mostra a crescente corrosão da popularidade presidencial - a atual gestão é reprovada por 44% dos brasileiros (eram 40% em janeiro), contra 30% de aprovação, índice similar ao de janeiro.

O pior está na questão da pandemia. Nada menos que 54% reprovam a atuação do governo no combate ao vírus, contra apenas 22% que aprovam. O novo ministro assumirá a Saúde sob forte cobrança da sociedade.

Enfim, ao presidente restam pouquíssimas alternativas. Manter a postura negacionista para reforçar os laços com seu aliado mais fiel, uma minoria radical, ou buscar o diálogo e agir em parceria com o restante da sociedade para virar o jogo. Os ventos de outono sopram para Bolsonaro.

André Pereira César
Cientista Político

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