O jogo do governo na CPI da Covid

Em franca minoria no colegiado, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) adotou, nas últimas horas, uma estratégia de risco para conter os potenciais danos ao governo na CPI da Covid do Senado Federal. A ordem é defender o titular do Planalto a todo custo.

Desde fevereiro, Bolsonaro vem colecionando reveses no campo da CPI. Não conseguiu barrar a apresentação do requerimento de criação da comissão, nem postergar sua instalação. Também viu frustrada a tentativa de ampla investigação sobre governadores e prefeitos. Por fim, não terá nenhum governista na presidência e na relatoria dos trabalhos - o desafeto Renan Calheiros (MDB/ AL) será o relator.

Assim, restou ao governo a busca da blindagem total a Bolsonaro. O roteiro já está montado – criar o máximo de confusão possível. Jogar toda a culpa pelos erros no enfrentamento da pandemia no ministério da Saúde, em especial no ex-ministro Eduardo Pazuello, hoje um alvo fácil, é um deles. Um movimento importante nesse sentido foi a entrevista do declarado olavista e ex-secretário de Comunicação do governo, Fábio Wajngarten, à revista Veja.

De maneira explícita, Wajngarten joga toda a culpa pela crise e pelo caos na saúde nas costas de Pazuello e sua equipe, majoritariamente militar. Segundo ele, o então ministro teria inclusive repassado ao presidente dados errados sobre o quadro da COVID-19 no Brasil, induzindo Bolsonaro a erros. Incompetência é uma palavra que permeia toda a entrevista.

A disputa pelo poder entre olavistas (o grupo mais ideológico e radical do governo, que tem entre o seu quadro figuras como Ernesto Araújo, Felipe Martins e o próprio Eduardo Bolsonaro) e os militares é sabida e desde o início gerou conflitos. A demissão do ex-ministro da Secretaria de Governo, general Santos Cruz, traduz bem o que é e como se dá essa batalha por espaço.

Dentro do roteiro do quanto maior a confusão, melhor, a entrevista de Wajngarten levanta suspeitas e perde consistência se relembrarmos a fala de Pazuello, no segundo semestre de 2020, quando ainda se recuperava da Covid-19, sobre o peso de Bolsonaro nas decisões do ministério - “um manda, o outro obedece”. Mais claro impossível.

Dado o histórico do governo Bolsonaro, não seria surpreendente tratar-se de mais uma cortina de fumaça, haja vista a insistência do presidente em nomear Pazuello para um cargo no Planalto.

Os assessores mais próximos de Bolsonaro já o alertaram que, dado o perfil do ex-ministro, ele pode tornar-se um verdadeiro “homem-bomba”, com informações preciosas para a CPI. Ofertar a cabeça de Pazuello, desse modo, ou como se tenta parecer, pode gerar um perigoso efeito inverso para o governo.

Há ainda outra questão relativa à entrevista de Wajngarten. Ao atacar Pazuello e seu modo de atuar, ele atinge diretamente o Exército - afinal, o ex-ministro da Saúde é general da ativa e teve ao seu lado na pasta dezenas de militares. As relações entre o Planalto e a caserna, já abaladas desde o afastamento dos chefes das três Forças semanas atrás, podem sofrer nova atribulação.

Enfim, Bolsonaro acusou o golpe e mostrou que a CPI será um grande incômodo para seu governo. Ao atacar Pazuello (de forma intencional ou não), Wajngarten pode estar criando uma nova frente de crise, e o Planalto pode ser o grande derrotado nesse processo.

André Pereira César
Cientista Político

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