O governo e seus conflitos

O presidente Jair Bolsonaro flerta com o abismo. Essa frase pode soar forte demais, mas resume bem o estado atual da administração. A interferência do Planalto sobre diversas carreiras de Estado e também sobre instituições de peso na máquina pública pode trazer consequências imprevisíveis.

Nas últimas semanas, Bolsonaro abriu frentes de conflito com instituições respeitadas mundo afora, como a Embrapa e o INPE. Em ambos os casos, os presidentes das instituições foram exonerados por clara ingerência política. A Ancine, por sua vez, entrou na alça de mira do governo e corre o risco de ser extinta.

O Coaf, que foi objeto de disputa entre os ministérios da Justiça e da Economia, igualmente entrou no balaio. O órgão passará a ser controlado pelo Banco Central. Aqui, nota-se evidente interesse do presidente em afastar o número um da instituição, por óbvias razões políticas.

Fundamental na estrutura estatal, a Polícia Federal também sente os efeitos da ação palaciana. Bolsonaro entrou em cena para interferir na indicação do Superintendente do órgão no Rio de Janeiro. De norte a sul do país, delegados se rebelaram e ameaçam até mesmo entregar seus cargos.

Note-se que a ação do presidente da República sobre a PF e o Coaf apenas ampliam o desgaste do ministro da Justiça, Sérgio Moro, já pressionado pelo vazamento de conversas com integrantes da Lava Jato.

Por fim, chegou a vez da Receita Federal. O governo se mobilizou para fazer indicações políticas em postos-chave da instituição e a resposta foi imediata. Assim como na PF, o alto escalão da Receita ameaça com um movimento de demissão em massa. Para completar, na noite de segunda-feira, 19 de agosto, o subsecretário-geral da instituição, o número dois na escala hierárquica, foi demitido. Gasolina na fogueira.

No momento em que o mundo olha para o Brasil preocupado com diferentes questões, como a extinção do Fundo Amazônia, o presidente Bolsonaro gera conflitos desnecessários junto a importantes aliados. Caso insista nisso, vai ampliando, ainda mais, o já evidente isolamento político. Crise institucional à vista?

André Pereira César

Cientista Político

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