O elemento Ômicron

A entrada em cena da variante Ômicron da Covid-19, originada no sul da África e com casos registrados em diversos países, traz um elemento extra de incerteza ao já conturbado quadro geral. O que pode mudar daqui em diante e quais os potenciais impactos na política brasileira?

Em primeiro lugar, a questão da pandemia poderá voltar rapidamente ao topo das preocupações da população. O tema estava perdendo espaço para a economia, com o desemprego e inflação em alta e a perspectiva de crescimento pífio do PIB, com possibilidade de retração em 2022. Tudo pode mudar, agora.

De acordo com a mais recente pesquisa XP/Ipespe, realizada entre os dias 22 e 24 de novembro e divulgada na sexta-feira, 26, 36% dos entrevistados afirmaram não estar com medo do coronavírus, contra 39% com “um pouco de medo”. No levantamento de setembro eram 41% com um pouco de medo, contra 30% sem receio algum. Outros 24% têm “muito medo” hoje - esse índice era de 28% em setembro. A trajetória de relaxamento da população com a pandemia pode ser interrompida, a depender da evolução dos acontecimentos.

Há riscos evidentes para o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A mesma pesquisa mostra que 55% dos brasileiros avaliam como “ruim/péssima” a atuação do titular do Planalto no combate à pandemia, contra 23% de “ótima/boa”. Em março último, no auge da pandemia, esses números estavam, respectivamente, em 61% e 18%. Um eventual agravamento do quadro sanitário colocará novamente à prova o negacionismo do governo, podendo piorar significativamente a popularidade de Bolsonaro.

Mas o primeiro sinal emitido por Bolsonaro não foi bom. O presidente afirmou que o Brasil não aguentaria mais um lockdown e por isso descartou fechar aeroportos e fronteiras, apesar da alta no número de infecções pela Covid na Europa e da nova variante. Como resposta, o “Centrão”, na figura do ministro chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP/PI), passando por cima da vontade presidencial, anunciou o fechamento das fronteiras aéreas para passageiros vindos de seis países do sul da África a partir dessa segunda-feira, 29 de novembro. O titular do Planalto, ao que parece, já não assusta mais.

No plano eleitoral, os pré-candidatos poderão ser obrigados a realizar uma correção de rota. Até o momento é a economia a tônica do debate, inclusive com a montagem de equipes de especialistas para trabalhar com cada um dos presidenciáveis - Lula (PT), Sérgio Moro (Podemos) e Ciro Gomes (PDT) já têm suas estrelas em campo. Quem pode sair à frente nessa eventual piora da pandemia é o governador paulista João Dória (PSDB), que certamente se utilizará do fato de ser o primeiro fiador da vacina no Brasil para tentar ganhar parcela do eleitorado.

Por fim, os mercados globais já sentem o risco do avanço da Ômicron e caíram fortemente na última sexta-feira, com inevitáveis reflexos sobre o Brasil. Ainda é uma incógnita o quanto a ameaça pode afetar a agenda imediata do Congresso Nacional, por ora focada na PEC dos Precatórios e no Auxílio Brasil, de interesse primordial para o Planalto.

Por enquanto, o território pertence à especulação. A nova variante pode ser apenas um susto sem maiores consequências, mas também pode representar um novo e sinistro convidado a adentrar a já complexa conjuntura. A resposta será dada em breve.

André Pereira César
Cientista Político

Colaboração: Alvaro Maimoni – Consultor Jurídico

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