O dia seguinte – 2

Ao contrário do que muitos esperavam, as manifestações do domingo, 26 de maio, não foram nem um retumbante fracasso nem um sucesso absoluto. Por todo o país, milhares de pessoas saíram às ruas para defender o governo e sua agenda.

Paradoxalmente, o evento não deverá se reverter em votos no Congresso Nacional. A explicação para isso é simples. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ), e os integrantes do Centrão foram os principais alvos dos manifestantes. Só que as manifestações, apesar de significativas, não conseguiram atingir o seu principal objetivo, que era o de botar pressão sobre o parlamento. Pelo contrário. O que se espera agora, é alguma espécie de vingança da parte deles.

Outro efeito colateral das manifestações é a agudização de um ambiente político já polarizado. Bolsonaristas e oposicionistas não deixam abertura para um diálogo mínimo. Todos perdem com isso.

Ao convocar a população para sair em sua defesa (apesar da negação em público), o presidente Bolsonaro fez sua jogada mais arriscada desde que tomou posse. Ele certamente tinha em mente os protestos contra Collor, em 1992. Hoje, o governo passou no teste. Amanhã já não se sabe. Alguns fatores contribuem para essa incerteza, como a estagnação da economia sem qualquer perspectiva de melhora, pelo menos a curto prazo, a acentuada queda da popularidade e o esgarçamento do diálogo com os outros poderes da República.

É evidente que o Planalto precisa mudar de atitude. Se apoiar apenas em redes sociais e em uma fração da opinião pública é muito pouco. As negociações com os parlamentares são fundamentais.

A semana para Bolsonaro inicia do mesmo jeito que terminou. Na pauta do Congresso MPs que podem ou não perder a eficácia, a depender da vontade política, em especial a MP 870 que trata da reforma ministerial – e em particular o Coaf –, reforma da previdência e reforma tributária. No STF, a retomada do julgamento de ações sobre a criminalização da homofobia, assunto bastante caro para grande parte do eleitorado do presidente Bolsonaro.

Resta agora aguardar a poeira baixar para se avaliar com precisão o alcance das manifestações e quais os seus efeitos práticos. De todo modo, em meio a noticias negativas, Bolsonaro pode comemorar uma pequena vitória.

André Pereira César

Cientista Político

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