Governo Jair Bolsonaro: Pacto? Qual pacto?

A tão esperada reunião entre os três Poderes ocorreu e seu resultado final não surpreendeu aos que acompanham o cotidiano da política. Ao final, discursos conciliatórios e o anúncio da criação de um comitê para tratar do combate à pandemia pouco trazem de novo. O jogo segue o mesmo.

Apenas para registrar, desde a redemocratização, no governo Sarney, são registradas inúmeras tentativas de se estabelecer um “pacto nacional” entre os três Poderes em torno de temas cruciais para a população. Nada de efetivo foi alcançado nesse período e, no ápice da crise da COVID-19, o quadro é similar. Trata-se de muito barulho por nada.

O saldo da reunião dessa quarta-feira, 24 de março, não foi diferente. Pior, retrata o descolamento total da realidade. A formação de um comitê com reuniões semanais, para tratar de uma “nova” cepa ou de um “novo” vírus, assegurando a autonomia dos médicos, ou seja, tratamento com métodos não aprovados pelas recomendações internacionais, sem mencionar as medidas de isolamento social e o uso de máscaras, sem apresentação de um programa efetivo para início imediato, mostram a falta de um projeto efetivo com a urgência que se espera. Sem contar que qualquer medida deveria ter sido tomada ainda em 2020 e não agora, com 300 mil óbitos.

No plano puramente político, a ausência de governadores do Nordeste, de grande parte do Norte e também do Centro-Oeste demonstrou que o presidente Bolsonaro fez um evento apenas para governantes que o apoiam, demonstrando assim não estar de fato empenhado na resolução da crise. Além disso, a participação do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Fux, foi totalmente descabida e sem sentido - ele inclusive abriu sua fala afirmando que não deveria estar ali porque a Corte, em última instância é quem deverá analisar a legitimidade dos atos praticados pelo Comitê.

Por fim, não se pode deixar de registrar um “buraco” no desenho da reunião. A falta de ao menos um representante dos municípios chama a atenção - não se pode falar em união nacional sem a participação de prefeitos no debate.

Bolsonaro, por seu lado, busca saídas para seu enfraquecimento político - perda de popularidade junto à opinião pública, críticas fortes da parte de diversos setores relevantes da cadeia produtiva, da sociedade e da comunidade internacional. Seu discurso em rede nacional na terça-feira, 23 de março, mostrou um presidente desnorteado.

O presidente da República tem uma coisa a celebrar hoje: ele ganhou uma sobrevida, mesmo que momentânea, dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Dada a extensão da crise, isso é muito pouco para o futuro de seu governo.

André Pereira César
Cientista Político

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