Esperando o 7 de setembro

A proximidade das eleições tem reforçado a percepção do risco de uma ruptura institucional. O presidente Jair Bolsonaro (PL) e aliados, incluindo alguns militares, retomaram as críticas ao sistema eleitoral, às urnas eletrônicas, à imprensa e a integrantes do Judiciário. O objetivo é claro - mobilizar o eleitorado mais fiel e, no limite, preparar o terreno para uma eventual virada de mesa. As instituições seguem desafiadas.

Não por acaso, setores do mundo político, do mercado financeiro e membros de tribunais superiores têm discutido (com preocupação) o quadro atual. Esses diálogos, sempre reservados, são pautados pela busca de soluções para a crise que se avizinha. O temor é geral.

Há inclusive uma data para a eclosão do processo, o feriado de 7 de setembro, que no ano passado já foi palco de uma frustrada tentativa do titular do Planalto de mudar o jogo de maneira não democrática - “fora das quatro linhas”, como o próprio gosta de frisar. Dessa vez, a situação ganha dramaticidade extra, pois a celebração dos 200 anos da independência do Brasil ocorrerá poucas semanas antes do primeiro turno das eleições.

Bolsonaro, por sinal, agora extrapola todos os limites de sua já conhecida estratégia. Seu recente encontro com o presidente norte-americano Joe Biden teve como destaque o “pedido” de que, de alguma forma, os Estados Unidos trabalhem para evitar a vitória do ex-presidente Lula (PT), que representaria, aos olhos e gosto de Bolsonaro, uma ameaça aos interesses daquele país. Mais do que uma gafe, uma saia justa diplomática.

O desespero do grupo que hoje comanda o governo é evidente. As últimas pesquisas de intenção de voto apontam a possibilidade real de êxito do candidato petista já no primeiro turno. Seria a primeira vez que um presidente perderia a reeleição. Nunca antes na história desse país.

O comunicado enviado pelo ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, cobrando a atuação das Forças Armadas na fiscalização das eleições, sintetiza à perfeição o momento. O ministro, por sinal, é dos bolsonaristas mais radicais e sua colocação encontra eco em parcela não desprezível do eleitorado. Recado dado.

A sensação de instabilidade é tão perceptível que a Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, na apresentação do seu informe diante do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, nesta segunda-feira, 13 de junho, afirmou que "Em outubro vocês têm eleições. E peço a todas as partes do mundo que as eleições sejam justas, transparentes e que as pessoas possam participar livremente. (…) Será um momento democrático muito importante e não deve haver interferência de nenhuma parte para que o processo democrático possa ser atingido".

Perguntas não faltam. Há ambiente para alguma aventura fora das regras do jogo democrático? As instituições têm condições de enfrentar um movimento desse tipo? Afinal, elas (as instituições) estão realmente funcionando? As respostas serão conhecidas em breve.

André Pereira César
Cientista Político

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