Entendendo o Centrão – um pouco de história

Muito se comenta a respeito da força política e da importância do Centrão para o avanço da agenda legislativa. Caso os integrantes do bloco informal, composto por cerca de duzentos deputados, dê seu aval para as principais proposições em tramitação, as chances de êxito serão grandes. Do contrário, um “não” do Centrão aproximará o grupo dos partidos de oposição, e a votação de matérias como a reforma da Previdência torna-se mais difícil.

O Centrão sempre foi forte e, a rigor, surgiu durante a Constituinte, na segunda metade da década de oitenta do século passado. Naquele momento, o Brasil realizava uma ampla revisão de seu arcabouço jurídico, após mais de vinte anos de regime militar. Cinco partidos integravam o bloco - PMDB, PDT, PFL, PL, PTB, PDC e PDS. O símbolo máximo do movimento era o deputado Roberto Cardoso Alves, do PMDB paulista.

O perfil do grupo era de centro-direita. Na elaboração da nova Constituição, eles se uniram em torno das propostas defendidas pelo então presidente José Sarney, em contraponto à agenda de Ulysses Guimarães, considerada muito progressista. Ao final, apesar dos inegáveis avanços sociais, no campo dos direitos civis e políticos, o Centrão deixou sua marca. De quebra, o presidente Sarney ganhou mais um ano de mandato.

Um salto no tempo nos leva ao governo Lula. Ali, os partidos que compunham o Centrão integraram a base aliada e apoiaram em larga medida a agenda governista. Em contrapartida, foram atendidos em suas demandas por cargos e emendas. Tudo dentro das regras do jogo, diga-se.

Na condição de líder da bancada do PMDB, o deputado Eduardo Cunha rearticulou o Centrão em 2014. Tratava-se de um bloco robusto - PMDB, PTB, PR, PROS, PP, PSC e Solidariedade. Com esse apoio, Cunha elegeu-se facilmente presidente da Casa no início de 2015. A partir de então, a ação do Centrão foi crucial para o encaminhamento do  processo que resultou no impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Já na gestão Temer, o bloco seguiu unido. Destaca-se aqui o trabalho de seus integrantes sob a liderança de André Moura (PSC/SE) e de Aguinaldo Ribeiro (PP/PB), para barrar duas denúncias contra o presidente. Com sucesso, frise-se.

Hoje, o Centrão representa à perfeição o embate entre a “velha política” e a “nova política”, aos olhos do presidente Bolsonaro e de seus eleitores. Essa visão só faz aumentar o abismo com o parlamento e impede a construção de um diálogo para formação de uma base necessária para aprovação dos projetos de interesse do Planalto.

Mas nem tudo são flores. Há sinais de fissuras no bloco, que enfrenta ainda pressões da imprensa e de setores da opinião pública. Mesmo assim, não se deve subestimar a força e a resiliência do grupo. Essa briga pode trazer consequências negativas e irreversíveis para o Planalto.

André Pereira César

Cientista Político

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