Ensaio de crise na seara econômica

Nos últimos dias, o “modo Bolsonaro” de governar atingiu diretamente o núcleo econômico da atual administração. Dois episódios mostram que a mistura de amadorismo com reduzida capacidade de dialogar podem gerar consequências danosas a todos.

Em primeiro lugar está o imbróglio em torno da reforma da Previdência. Ao criticar duramente o relatório apresentado pelo deputado Samuel Moreira (PSDB/SP), o ministro da Economia, Paulo Guedes, inaugurou novo conflito com o Congresso Nacional. O parecer apresentado, como se sabe, retirou do texto original dispositivos considerados importantes pela equipe econômica, como a capitalização e a previdência rural.

“O governo é uma usina de crises”, afirmou o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ), apoiado pelas lideranças de diversos partidos. O clima é o pior possível. Ao ministro faltou um mínimo de habilidade política, além de capacidade de entender que a proposta original jamais seria aprovada pelo Parlamento muito em decorrência do desgaste político que os parlamentares teriam que assumir perante as suas bases eleitorais. O resultado das urnas, em 2018, disse mais do que se esperava e “gato escaldado, tem medo de água fria”. Além disso, Executivo e Legislativo se afastam mais e mais. O “parlamentarismo branco” ganha força e hoje já é uma realidade.

O segundo episódio diz respeito ao BNDES e seu até então presidente, Joaquim Levy. Ao anunciar o nome de Marcos Pinto para o cargo de diretor de mercado de capitais da instituição, Levy despertou a ira do presidente Bolsonaro. O motivo, o fato de o executivo ter trabalhado no próprio BNDES durante a gestão Lula.

A cabeça de Levy foi colocada a prêmio e a ele não restou outra opção a não ser pedir demissão. Consumado esse fato, resta um importante efeito colateral - como fica nessa situação o principal patrocinador da nomeação de Levy para o BNDES, o ministro Paulo Guedes? No mínimo, algum constrangimento ficará no ar.

Por fim, o quadro geral indica o grau de dificuldade que o novo titular da Secretaria de Governo, General Ramos, enfrentará à frente da pasta. Uma de suas principais atribuições será tratar da articulação política. Sua primeira missão será trabalhar para apaziguar os ânimos entre o Planalto, o núcleo econômico e o Congresso. Espera-se que, ao contrário de alguns colegas de Esplanada, ele jogue água, e não gasolina, nessa fogueira que arde.

André Pereira César

Cientista Político

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