Em busca do equilíbrio perdido – Notas políticas de uma semana tensa

. Em meio ao aumento expressivo do número de casos de COVID-19 em todo o país e no mundo, o governo do presidente Jair Bolsonaro lançou uma campanha institucional incentivando as pessoas para que retornem ao trabalho e à “normalidade”. Com isso, o conflito do presidente com os governadores e prefeitos, que defendem isolamento total, sobe mais um degrau. A cada dia que passa vão se reduzindo as chances de retomada do diálogo entre as partes.

. Mesmo entre os governadores são registradas dissidências. Os governadores de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e de Rondônia, Coronel Marcos Rocha (PSL), não assinaram o documento divulgado pelo Fórum dos Governadores contra o presidente da República. Apesar da não assinatura, mantém as regras de isolamento. A posição do mineiro foi a que mais desagradou seus pares.

. Ainda sobre o movimento dos governadores, já pode ser captado, ainda de maneira incipiente, certo desconforto com o protagonismo do paulista João Dória (PSDB) e do fluminense Wilson Witzel  (PSC). Há o temor de que os projetos político-eleitorais de ambos acabem por ofuscar o trabalho dos demais. Cabe lembrar que os estados, em sua grande maioria, vivem uma situação fiscal dramática, que será agravada pela crise gerada pelo novo Coronavírus.

. O governador goiano Ronaldo Caiado (DEM) entrou definitivamente em cena. Até então aliado de Bolsonaro, ele rompeu publicamente com o presidente e adotou tom duro contra as medidas do Planalto para enfrentar o novo Coronavírus.

. No âmbito do governo federal, chama a atenção o posicionamento do vice-presidente, Hamilton Mourão. Contrariando Bolsonaro, ele afirmou que o único posicionamento era o da quarentena com o isolamento social em todo o Brasil para que a crise na saúde pública seja debelada. O incômodo foi sentido imediatamente, tanto que o presidente Bolsonaro afirmou a um pequeno grupo de apoiadores, na frente do Palácio da Alvorada, que o presidente era ele. Mourão tem sido visto, novamente, por setores diversos, como uma alternativa viável a Bolsonaro no comando da nação.

. Paralelamente a isso, o Congresso Nacional também vive dias de tensão. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), que não esconde ter pretensões eleitorais maiores em seu estado, o Rio de Janeiro, diuturnamente tenta ocupar os espaços e tenta se lançar como o grande timoneiro a conduzir o Brasil em águas turbulentas. Para sustentar seu projeto de poder, Maia vem apresentando respostas políticas e econômicas na busca de soluções para o difícil momento pelo qual o país atravessa.

. O ministro da Economia, Paulo Guedes, submergiu. O “Posto Ipiranga” relegou a seus subordinados a condução de estratégias econômicas para encarar a crise econômica gerada pelo Coronavírus.

. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM/MS), arranhou a sua imagem de grande líder ao endossar o pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro de que o novo Coronavírus não passava de uma "gripezinha". Desagradou governadores, secretários de saúde, médicos e demais profissionais da saúde.

. Por fim, é importante registrar que o governo federal sofreu duas importantes derrotas nos últimos dias. No Supremo Tribunal Federal, o ministro Alexandre de Moraes suspendeu item da MP que impõe restrições à Lei de Acesso à Informação durante a atual pandemia. Na Câmara, foi aprovado auxílio de R$ 600 a trabalhadores durante a vigência do Coronavírus. O governo, que defendia o valor de R$ 200, tenta cravar a iniciativa como sua, mas ficou evidente o peso das lideranças partidárias em especial de Rodrigo Maia, nesse debate.

André Pereira César

Cientista Político

Álvaro Maimoni

Consultor Jurídico

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