Em Busca do Equilíbrio Perdido – Nau à Deriva

A semana que se inicia será dramática em diferentes sentidos. De um lado, o número de infectados pelo novo Coronavírus deverá aumentar ainda mais, com consequente acréscimo de vítimas fatais. De outro, a economia seguirá claudicando, aumentando a tensão de famílias e empresas. Por fim, o mundo político continuará tensionado ao limite, com duros embates entre Planalto, estados e Congresso, quadro esse agravado pela quase demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

No plano político, o tensionamento extra é mais que visível. O presidente Jair Bolsonaro segue se isolando e, ao convocar evangélicos para jejuar e pedir ajuda divina no combate ao vírus, mostra-se cada vez mais perdido, sem plano de voo algum.

Indo além, o presidente da República tomou a decisão temida por todos – tentou demitir seu até então mais importante ministro, Mandetta. Contrariando a avaliação de muitos de que tratava apenas de retórica quando afirmou não ter medo de “usar a caneta contra aqueles que extrapolam”, Bolsonaro quase conseguiu afastar seu colaborador. Com essa medida, o presidente pode ter dado mais um largo passo rumo ao abismo.

As reações a essa quase demissão foram imediatas. O presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (DEM/AP), em dura manifestação, afirmou que o Parlamento não aceitaria o afastamento do ministro da Saúde.

A população, por sinal, emite sinais de apoio à quarentena instituída em todo o país. Segundo o DataFolha, 76% dos brasileiros acreditam que a população deve ficar em casa. Esse percentual é idêntico ao índice de aprovação popular do titular da Saúde, de acordo com o mesmo levantamento.

Enquanto isso, as polêmicas continuam. A provocação aos chineses feita pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, apenas acirrou ainda mais os ânimos de um importantíssimo parceiro comercial do Brasil. Não espanta, portanto, a decisão de Pequim de comprar mais soja dos norte-americanos, alegando questões de “segurança”.

Paralelamente a tudo isso, os estados seguem mantendo as medidas restritivas adotas há algumas semanas. O governador paulista João Dória (PSDB), por exemplo, prorrogou a quarentena pelo menos até 22 de abril.

Qual a capacidade de resistência do sistema a essa escalada de eventos negativos? A resposta ainda é desconhecida, mas uma coisa é certa - o Brasil se parece mais e mais com uma nau à deriva.

André Pereira César

Cientista Político

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