Em Busca do Equilíbrio Perdido – Cada Vez Mais Distante

No mais recente artigo, publicado em 2 de abril, tratamos do isolamento quase total do presidente Jair Bolsonaro. Agora, abordaremos três eventos que reforçam a percepção de que o titular do Planalto perdeu as rédeas do combate à grave crise atual. A falta de equilíbrio é flagrante.

Inicialmente, Bolsonaro havia sinalizado que mudaria o tom e o estilo e buscaria a conciliação com atuais desafetos, em especial os governadores. Ledo engano. Mais uma vez, ele atacou os chefes dos Executivos estaduais. Em entrevista a uma rádio, ele criticou as medidas restritivas colocadas em prática e as qualificou de “medinho”. Justamente quando se busca a concórdia, o presidente passa ao ataque.

Também o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, entrou definitivamente na alça de mira e está sendo preparado para o abate. Bolsonaro afirmou que falta humildade a seu colaborador e que este teria extrapolado em algum momento, mas que não pretende optar pela demissão durante a crise. É importante ressaltar que o titular da pasta tem realizado um trabalho próximo do exemplar, ofuscando a imagem do presidente da República. Não espantaria, novamente, que Mandetta comece a pensar em entregar o cargo. Seria uma péssima notícia, justamente quando aumenta o número de infectados pelo novo Coronavírus em território brasileiro.

Bolsonaro ainda estaria convocando a população para realizar um jejum em prol do Brasil no próximo domingo, 5 de abril. Medida inócua no plano da saúde pública mas que, no limite, tem sua função política - reforçar os laços do presidente com os evangélicos, hoje um setor que segue apoiando com firmeza seu governo. Cabe lembrar que outros setores, como o agronegócio e a chamada “bancada da bala”, aliados de primeira hora de Bolsonaro, começam a abandonar o barco.

A situação, já crítica, pode ganhar contornos ainda mais dramáticos com a eventual edição de decreto presidencial que suspenderia, em parte, o isolamento social nos estados. Bolsonaro analisa a questão e pode aplicar a medida a qualquer momento. Seria jogar gasolina na fogueira, com consequências políticas e sociais imprevisíveis.

André Pereira César

Cientista Político

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