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E agora, Europa?

Mudanças na composição do Parlamento Europeu já eram esperadas, mas o crescimento expressivo da ultradireita no pleito recém encerrado surpreendeu a muitos. O bom desempenho do bloco se deu, em larga medida, em função da perda de força política dos grupos ambientalistas - também conhecidos como “verdes”.

Para registrar, os países com maior número de representantes no Parlamento são a Alemanha (96), França (81), Itália (76) e Espanha (61). No extremo oposto, Malta e Chipre têm seis cadeiras cada.

Apesar do resultado, os membros favoráveis à continuidade da União Europeia (UE) - diferente do que prega a ultradireita -, deverão, em tese, manter a maioria no colegiado. O Partido Popular Europeu (EPP), da atual presidente Ursula von der Leyen, lidera o grupo, que é representado pelos conservadores moderados, social-democratas e liberais centristas, e somarão algo entre 390 e 410 assentos, de um total de 720.

A ultradireita, por seu torno, não é um bloco monolítico. Pelo contrário, divide-se entre os Conservadores e Reformistas e o Identidade e Democracia, com posições programáticas distintas. Mesmo assim, juntos, os partidos da italiana Giorgia Meloni e da francesa Marine Le Pen totalizam cerca de 130 vagas, e poderão contar com a adesão do grupo de Viktor Orbán, da Hungria, entre outros. Esse bloco inevitavelmente influenciará as decisões a serem tomadas pelo colegiado - e a votação recebida pelos seus integrantes revela uma preocupante tendência de alta.

No âmbito interno dos países integrantes da UE, alguns fatos de enorme importância e gravidade. Na França, o derrotado presidente Emmanuel Macron dissolveu a Assembleia Nacional e convocou eleições legislativas para o final de junho. No caso, as chances de vitória são reais para Le Pen e seu Reunião Nacional, que inclusive amenizou o discurso para conquistar um eleitorado mais moderado.  A verdade é que Macron caminha para a divisão de poder com Marine Le Pen, o que configurará a chamada “coabitação”.

A Alemanha vive quadro similar. O nada carismático chanceler social-democrata Olaf Scholz teve seu partido, o SPD, chegando em um lamentável terceiro lugar, atrás dos conservadores da CDU e CSU e dos ultradireitistas (neonazistas, na verdade) do AfD (Alternativa para a Alemanha). Péssima situação para o atual governo.

De imediato, algumas questões saltam das urnas. Como ficará a situação da Ucrânia, que hoje conta com o apoio do bloco em seu confronto com a Rússia? O resultado terá alguma influência sobre as eleições norte-americanas, potencializando a candidatura do republicano Donald Trump? Como fica a agenda política da região, em especial no que diz respeito às questões climáticas e ao problema da imigração?

Por fim, o Brasil também deverá sentir os impactos do resultado do pleito. Alguma dificuldade adicional no campo do comércio com a UE deverá ocorrer, bem como as já truncadas negociações em torno do acordo do bloco com o Mercosul tendem a se complicar. Nesse caso, o governo Lula (PT) irá acelerar os entendimentos com os expandidos BRICS e o “Sul Global”? E o grupo mais radical apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) terá uma vitória política nas próximas eleições municipais em função da nova configuração europeia?

A incerteza global está no ar, agora em versão renovada.

André Pereira César

Cientista Político

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