Crise no Planalto: Ninguém escreve ao general

É de conhecimento geral que as relações entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seu vice, o general reformado Hamilton Mourão (PRTB), andam estremecidas. Até há pouco, o assunto era tratado com discrição pelo Planalto, mas eventos recentes escancaram a situação.

O mal-estar veio definitivamente a público durante reunião ministerial, que reuniu 22 dos 23 ministros, promovida pelo presidente. Rejeitando o procedimento padrão, Bolsonaro convocou diretamente cada uma das pastas, deixando de fora seu vice. Em resposta a jornalistas, disse que não havia sido convidado por acreditar que o presidente tenha julgado ser desnecessária a sua presença.

No fim tarde, Mourão apesar de ser presidente do Conselho da Amazônia, não participou de uma cerimônia no Palácio do Planalto para o lançamento de um programa de adoção de parques na região amazônica por empresas privadas. Oficialmente, Mourão estaria em outro evento e não teria se incomodado com o fato, mas a explicação não convenceu. O estrago estava feito.

Tanto que anunciou que deverá se encontrar com ministros em uma reunião do Conselho da Amazônia, onde informará que as Forças Armadas deixarão de comandar a operação de fiscalização da Amazônia a partir de 30 de abril. Mais um problema para Bolsonaro, pois a saída dos militares será concomitante à reunião da cúpula global do clima, convocada pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, para o dia 22 de abril.

Na verdade, o isolamento do vice vem sendo construído há certo tempo, e a recente divulgação de conversas de um assessor do número dois sobre a possibilidade de troca de comando com o afastamento de Bolsonaro deteriorou de vez o quadro. A cordialidade entre os dois é coisa do passado.

É fato que Mourão, na condição de vice-presidente, não pode ser demitido (ao contrário dos ministros e demais integrantes do governo). Porém, o titular do Planalto pode tornar sua posição no mínimo desconfortável, relegando-o a uma mera peça decorativa. O “modo Bolsonaro de governar” indica que são reais as chances disso ocorrer.

Aqui cabem duas rápidas reflexões. Em primeiro lugar, a história recente mostra não ser de bom tom o presidente romper com seu vice – a então presidente Dilma Rousseff sentiu os efeitos disso na carne, cedendo a cadeira para Michel Temer. Além disso, a reação da caserna, tendo um importante membro da corporação pressionado, pode gerar problemas para Bolsonaro.

Ainda jovem, o colombiano Gabriel Garcia Márquez, Nobel de literatura, produziu o clássico “Ninguém escreve ao coronel”. Em resumo, a obra trata de um prestigiado oficial do Exército que, subitamente, perde todo o apoio do governo, tornando-se quase um pária. Alguém escreverá ao general Mourão?

Enfim, mesmo tendo derrotado a oposição na disputa pelo comando do Congresso Nacional e colocado seus principais adversários na defensiva, o presidente Bolsonaro segue a cometer erros. As crises continuam a ser gestadas pelo Planalto.

André Pereira César
Cientista Político

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