CPI da Covid e a “crise Kajuru”

O que já se desenhava polêmico e de difícil negociação piorou nas últimas horas. Ao tornar pública uma conversa telefônica com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o senador Jorge Kajuru (Cidadania/GO) agravou a tensão entre os três Poderes. Gasolina adicionada à fogueira, para se dizer o mínimo.

Kajuru, diga-se, foi coautor do mandado de segurança ao Supremo Tribunal Federal (STF) que resultou na decisão do ministro Luís Roberto Barroso obrigando a instalação imediata da CPI da Covid. O parlamentar faz uma espécie de jogo duplo que pode trazer danos a seu projeto político.

A conversa deixa clara a estratégia de Bolsonaro quanto às investigações - ampliar o escopo da CPI, para envolver governadores e prefeitos. No limite, ao dividir a culpa pela atual situação com outros atores políticos, o titular do Planalto tentaria minimizar os danos à sua imagem.

Essa estratégia ficou ainda mais clara com a ação do senador Eduardo Girão (Podemos/CE), que já está em campo coletando assinaturas para a criação da “CPI ampliada”. Cabe ressaltar aqui que a comissão original já poderia expandir seu leque investigatório, e a história mostra casos similares - a CPMI dos Correios, por exemplo, chegou a criar diferentes sub-relatorias, entre elas a dos Fundos de Pensão. Necessita-se apenas chegar a um entendimento político.

Na verdade, ao Planalto interessa postergar ao máximo o início dos trabalhos e, ao mesmo tempo, tumultuar o ambiente. Esse tumulto, por sinal, implica inclusive em retomar a discussão sobre o eventual impeachment de um ministro do Supremo Tribunal Federal. A mistura de assuntos absolutamente distintos - e controversos - geraria um impasse que paralisaria os trabalhos do Senado Federal.

Por ora, o presidente da República não atingiu seus objetivos. Pelo contrário, sua movimentação levou à antecipação do julgamento, pelo plenário da Corte, da decisão do ministro Barroso. No STF, o ambiente é desfavorável ao governo e a liminar deve ser confirmada.

Iniciando os trabalhos, a CPI terá o efeito imediato de paralisar quase na totalidade a agenda parlamentar. Ela se tornará o centro das atenções e o campo principal da batalha entre governo, centrão e oposição. Não por acaso lideranças tradicionais, como os senadores Ciro Nogueira (PP/PI), Jader Barbalho (MDB/PA) e Renan Calheiros (MDB/AL), já estão entre os cotados para ocupar postos de comando no colegiado. Os dois últimos, não por acaso, são pais de dois dos atuais governadores. O jogo será bruto.

Enfim, a turbulência ganha força. A CPI da Covid se junta ao avanço da pandemia, à crise econômica e ao imbróglio do orçamento. O mês de abril deixará sequelas no cenário político nacional.

André Pereira César

Cientista Político

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