Câmara dos Deputados em dois momentos

De um lado, a discussão em torno da mais importante peça legislativa do semestre. De outro, um dos chamados “superministros” do governo Bolsonaro sendo duramente inquirido por parlamentares em sessão conjunta de três comissões. A terça-feira, 2 de julho, foi tensa na Câmara e as consequências dos eventos ainda estão por se fazer conhecer.

No âmbito da reforma da Previdência, a oposição utilizou todas as ferramentas regimentais mas não conseguiu impedir a leitura do voto complementar do relator, deputado Samuel Moreira (PSDB/SP). Ponto para o governo, que avançou uma casa nesse complexo jogo político.

Continuam, porém, os problemas para a votação da matéria. O relatório de Moreira não incluiu estados e municípios, o que frustrou os governadores que negociavam esse ponto. Agora, resta saber se conseguirão reverter esse quadro no Plenário da Câmara ou no Senado Federal.

Outro dispositivo polêmico trata do fim da isenção previdenciária das exportações agrícolas. A poderosa bancada ruralista defendia a manutenção dessa isenção, mas foi derrotada e sente-se agora traída. A medida, por sinal, eleva a pouco mais de R$ 1 trilhão na economia esperada em dez anos caso o texto seja aprovado. O número dos sonhos do ministro Paulo Guedes, por ora, foi atingido.

Já a fala do ministro da Justiça, Sérgio Moro, deu-se dentro do esperado. A oposição fez questionamentos duros e Moro manteve a linha de defesa adotada desde o início dos vazamentos de supostas conversas entre ele e membros da Lava Jato.

O ministro se diz “vítima” e avalia que, caso as conversas tenham ocorrido, nada haveria de errado com elas. Os partidos de oposição, é claro, saíram insatisfeitos da sessão. Ponto para Moro e seus aliados, que seguem na construção de uma narrativa de defesa do ministro.

Ao final, em ambos os casos o elemento tempo será decisivo. O cronograma estabelecido para a votação da reforma da Previdência não deverá ser cumprido, dados os ajustes ainda necessários. Quanto a Moro, ele acredita que a questão se esvaziará com o passar do tempo e, no limite, até o fortalecerá politicamente. O relógio corre.

André Pereira César

Cientista Político

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