Brincando de Tiro ao Alvo

É do conhecimento geral o hábito do presidente Jair Bolsonaro de fritar colaboradores próximos quando entende serem estes um obstáculo a seus próprios interesses. Esse quadro não mudou desde sua posse, no início de 2019, e parece ganhar força junto com o avanço da crise gerada pelo novo Coronavírus.

O primeiro possível alvo é o ministro da Economia, Paulo Guedes. Denominado desde o início como “Posto Ipiranga”, ele assumiu na condição de um dos superministros do governo. Hoje, com o embarque de parte do Centrão no governo, somado ao Plano Brasil, que aumenta substancialmente os gastos do governo e a negociação, do próprio Bolsonaro junto ao Congresso para inclusão de outras categorias de servidores públicos que ficariam fora da proibição de reajuste salarial até dezembro de 2021, colocam em xeque a agenda e os planos de austeridade fiscal do ministro. A força política de Guedes vem diminuindo num ritmo acelerado.

Outro que possivelmente entrou na mira de alça é o ministro da secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos. Ramos e o ministro Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) afirmaram, em depoimento à Polícia Federal, que Bolsonaro havia se referido à PF na reunião do dia 22 de abril. Apesar da mesma declaração por parte dos dois ministros, somente Ramos é quem foi repreendido publicamente por Bolsonaro, quando afirmou que o ministro se "equivocou".

Igualmente a ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS), segue na berlinda. Conversas sobre uma possível saída não são exatamente novas nas rodas de conversas da ala ideológica do governo. Ela jamais aceitou as críticas de integrantes do governo sobre a China – um importantíssimo parceiro comercial do Brasil principalmente na área do agronegócio. Sua eventual saída, por incrível que possa parecer, não surpreenderá a pessoa alguma.

No auge da pandemia, com o assustador aumento do número de casos e de mortos, o ministro da Saúde, Nelson Teich, em menos de um mês à frente do cargo, perde o quase inexistente apoio político que tinha. Depois de ter sido pego de surpresa com o anúncio da abertura de academias e salões de beleza promovida pelo presidente Bolsonaro sem sequer ter sido consultado, e da reprimenda pública pelo presidente com relação à sua postura na utilização da cloroquina, já há quem conte as horas para a sua saída.

Por fim, a secretária de Cultura, Regina Duarte, é outro nome nesse balaio. Totalmente isolada, sem qualquer apoio político e, principalmente, sem apoio da própria classe artística, ela não disse a que veio - e sua queda não traria qualquer surpresa.

Enfim, o estilo Bolsonaro que já era mais que conhecido, tem se agravado nos últimos dias. A dinâmica do fato novo tem exercido uma pressão quase diária sobre o titular do Planalto. Em decorrência, não seria demais afirmar, então, que todos a sua volta podem, em algum momento, virar um alvo. Quem sobreviver a esse modus operandi dirá.

André Pereira César

Cientista Político

Alvaro Maimoni

Consultor Jurídico

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