Brasil 2022: civilização e barbárie*

“O horror, o horror!”. As palavras finais de Kurtz, personagem de “Coração das Trevas”, clássico de Jopeph Conrad, diz muitos sobre os dias atuais. Na obra, o traficante de marfim (Kurtz) parece sintetizar as atrocidades que viu e cometeu na África no século XIX. Ambiente pouco diferente do Brasil da terceira década do século XXI.

Civilização e barbárie representam como uma sociedade se estrutura. A barbárie sempre coexistiu com a civilização. Barbárie, a rigor, é um estado de caos e desordem social, em uma sociedade marcada pela violência, ignorância e crueldade. Um claro retrato dos dias que correm.

O recente episódio ocorrido no interior de Sergipe, com o brutal assassinato de Genivaldo de Jesus por integrantes da Polícia Rodoviária Federal, é apenas mais um que se soma a uma série de casos escabrosos. A vítima, que sofria de distúrbios mentais e cometeu uma mera infração de trânsito, foi colocada na caçamba de um camburão convertida em câmara de gás. Método digno da máquina nazista. Auschwitz é aqui. “Arbeit macht frei”.

Ao caso Genivaldo juntam-se as chacinas de Jacarezinho e Vila Cruzeiro, o bárbaro massacre de um refugiado congolês (Moïse Kabagambe) também na capital fluminense e abordagens mais do que truculentas das polícias ao redor do país. Tudo isso somente em 2022. O Estado, que deveria proteger o cidadão, passa a ser o algoz.

O pano de fundo dessa realidade está nos rumos que o país começou a tomar em 2013. A partir dali, grupos mais à direita passaram a ter um protagonismo extra, estabelecendo um novo debate - armar a população, defender a família “tradicional”, reduzir o espaço conquistado pelas minorias. Importantes avanços sociais implementados por políticas públicas a partir do primeiro governo Lula, após a posse de Michel Temer (MDB/SP), passaram a ser alvo de sistemáticos ataques culminando com o abandono, revisão ou encerramento. Na prática, trata-se de um retrocesso civilizatório.

Com Jair Bolsonaro (PL) no Planalto, o ciclo se completou. O eleitor mais alinhado ao atual presidente defende uma agenda mais agressiva, pouco afeita ao diálogo, aos menos favorecidos e minorias. O agravamento da crise econômica e social e a pandemia acabaram servindo de base para reforçar as atuais medidas adotadas pelo Estado.

Para ficar em apenas um exemplo, não há mais matérias sobre direitos humanos nos cursos de formação de policiais. Pior, é fácil encontrar na internet vídeos com “instrutores” ensinando pessoas que estão ingressando nas corporações a abordar de maneira truculenta os cidadãos. Modus operandi que atinge em especial negros e pobres.

Infelizmente, o que se vê é a normalização de uma situação absurda. Em período eleitoral, o ideal seria que as forças políticas se debruçassem sobre o tema em busca de soluções efetivas para o grave problema. Do contrário, o quadro se cristalizará. “O horror, o horror” será a norma.

André Pereira César
Cientista Político

*Tema da live do dia 02 de junho de 2022, disponível no nosso canal no YouTube

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