Bolsonaro na ONU

Há tempos um discurso presidencial não gerava tamanha expectativa. Após semanas de incertezas por conta (oficialmente) de sua saúde, Jair Bolsonaro irá à Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Ele falará na abertura do evento na terça-feira, 24 de setembro. O mundo ouvirá com atenção as palavras do presidente brasileiro.

Há o receio geral de que Bolsonaro reforce certas posições polêmicas de seu governo e jogue mais gasolina em uma fogueira que arde há um bom tempo. Em suas poucas e rápidas declarações sobre o assunto, porém, o presidente tem afirmado que “fará um discurso objetivo” e que “ninguém vai brigar com ninguém”. A conferir.

De concreto, sabe-se que o brasileiro fará uma defesa mais contundente da soberania nacional e defenderá a atuação do governo na questão da Amazônia. Nesses dois pontos não está descartada a possibilidade de ataques a críticos da política brasileira, como o presidente francês Emmanuel Macron, o que apenas pioraria a crise instalada entre o Brasil e diversos países, principalmente da União Europeia. O discurso, por sinal, foi preparado a várias mãos - o chanceler Ernesto Araújo, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) e o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, estão entre os autores.

O mercado, em especial, está preocupado com o discurso presidencial e suas potenciais consequências. Fundos de trinta países que movimentam cerca de US$ 16 trilhões em ativos exigem ações efetivas contra o desmatamento e as queimadas, que teriam aumentado significativamente desde o início do governo Bolsonaro. Também muitos congressistas europeus têm atacado o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, em função da questão ambiental.

A depender de integrantes do governo, o discurso de Bolsonaro pode ser realmente belicoso. Um exemplo vem da ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves. Participando recentemente da Cúpula da Demografia da ONU, ela fez uma defesa veemente dos “valores da família” e que seja estabelecida uma aliança contra gays, feministas e imigrantes. Ela foi apoiada por diversas lideranças de direita, como o presidente húngaro Viktor Orbán, o ultraconservador que representa bem a atual ascensão populista no planeta.

Historicamente, a diplomacia brasileira sempre foi referência em todo o mundo. O Brasil também sempre praticou a política da conciliação, negociando atritos e conflitos entre países. Agora, a situação pode mudar de maneira radical. Caso Bolsonaro insista no confronto, o país poderá se afastar em definitivo de aliados históricos, o que gerará efeitos bastante negativos para todos.

André Pereira César

Cientista Político

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