Bolsonaro na ONU – 2

Durante 31 minutos, as atenções de quase todos estavam voltadas para ele. Em seu discurso na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente Jair Bolsonaro mostrou-se duro e partiu para o ataque contra muitos, fossem eles adversários ou meros desafetos.

O receio de que Bolsonaro reforçasse certas posições polêmicas de sua administração e jogasse mais gasolina em uma fogueira que arde há um bom tempo se confirmou, em larga medida. Em sua defesa contundente da soberania nacional e salvaguardando a atuação do governo na questão da Amazônia, Bolsonaro atacou governos estrangeiros, imprensa, ONGs e até mesmo uma referência na questão ambiental e indígena, o Cacique Raoni. Nesse aspecto, as palavras do brasileiro causaram desconforto geral na audiência.

Outros pontos do discurso mais se assemelharam à campanha eleitoral. Ao criticar o programa Mais Médicos, Bolsonaro atacou Cuba e as suspeitas relações daquele país com o PT. Indo além, ele comemorou o fato de haver sido vitorioso contra o “socialismo” - uma afirmação bastante plausível durante a Guerra Fria, na segunda metade do século XX, mas que agora carece de sentido.

É importante ressaltar que a retomada do desenvolvimento econômico do Brasil passa diretamente pelo aporte de recursos de investidores estrangeiros, que estão preocupados em especial com a questão ambiental. Bolsonaro, no discurso, não disse o que efetivamente seu governo está fazendo para tratar do problema do desmatamento e das queimadas na região da Amazônia. Falou apenas de maneira genérica e sem apresentar dados consistentes. Isso apenas fez aumentar as incertezas quanto ao futuro do acordo entre a União Europeia e o Mercosul, fundamental para nosso país.

Em suma, Jair Bolsonaro foi apenas Jair Bolsonaro. Ao invés de apontar caminhos e soluções para questões prementes, ele preferiu pisar em terreno seguro e atacar velhos fantasmas. O presidente pregou aos convertidos - e a expressão “pregar aos convertidos” ganha mais sentido ao lembrarmos que ele, ao final de sua fala, citou um versículo bíblico. No plano interno, nada muda. Os aliados e apoiadores de Bolsonaro consideraram seu discurso a “obra de um estadista”, enquanto os oponentes execraram as palavras proferidas como uma vergonha internacional. No plano externo, porém, o Brasil pode ter recuado algumas casas, com o risco de ser isolado pela comunidade internacional. O tempo dirá.

André Pereira César

Cientista Político

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