Bolsonaro e vacinação: a opinião pública em campo

Enquanto diversos países ao redor do planeta iniciam o processo de vacinação contra a Covid, a incerteza prevalece no Brasil. A politização da questão, materializada na disputa entre o Planalto e os governos estaduais, gera dúvidas na população. Recente pesquisa do DataFolha resume o quadro.

De acordo com o levantamento, realizado entre 8 e 10 de dezembro, 73% dos brasileiros querem se vacinar, contra 22% contrários à medida. Em agosto, os índices eram de 89% e 9%, respectivamente. O crescimento da rejeição à vacina reflete a postura negacionista do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) - hoje, seu apoiador fiel segue em torno de 20% da população.

Quando se detalha a origem da vacina a ser aplicada, os números são ainda mais interessantes. Dos entrevistados, 74% receberiam a medicação originada dos Estados Unidos; 70% da Inglaterra; 60% da Rússia; e 47% da China, o país mais rejeitado pelos brasileiros.

Essa rejeição à China, que ganhou força no governo Bolsonaro, pode ter duas explicações distintas. De um lado, há o componente ideológico - afinal, apesar das fortes evidências em contrário, o espectro do “comunismo” ronda aquele país, na visão do eleitorado bolsonarista. Nesse sentido, a vacina poderia trazer embutida chips capazes de obter informações privadas dos cidadãos, entre outras coisas. Uma especulação bem ao gosto dos teóricos da conspiração.

De outro lado, a rejeição aos chineses pode ser entendida por um aspecto material. Ao longo dos anos, os produtos feitos na China e comercializados no Brasil conquistaram a fama de serem de baixa qualidade, com pouca eficácia e durabilidade. A vacina oriunda naquele país, portanto, se enquadra nessa categoria, um produto de “segunda qualidade”.

A pesquisa traz ainda uma boa notícia para o presidente da República. Na avaliação de 52% dos entrevistados, Bolsonaro não tem culpa alguma pelas mortes decorrentes da Covid, enquanto 38% consideram-no com alguma parcela de responsabilidade. Apenas 8% apontam o titular do Planalto como o principal culpado pelos óbitos.

Mesmo assim, 42% avaliam como ruim ou péssima a gestão presidencial em relação à pandemia. Outros 30% consideram sua atuação ótima ou boa, e 27% regular. A isenção de culpa exclusiva de Bolsonaro não exime seu desempenho de críticas.

Em resumo, a pesquisa DataFolha mostra que a questão da vacinação contra a Covid se tornou o novo terreno da polarização política no Brasil. A pesquisa mostra ainda a força do bolsonarismo e do sucesso do discurso apregoado por Bolsonaro ao longo de todo seu mandato. Esse quadro deverá se agudizar caso a principal e mais imediata opção para os brasileiros seja a vacina chinesa, produzida em parceria com o Instituto Butantã.

André Pereira César
Cientista Político

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