Bolsonarismo em transe

A reação inicial foi de surpresa. O nome de Kassio Marques, indicado para o Supremo Tribunal Federal (STF), estava fora do radar de todos - políticos, juristas, imprensa, sociedade civil organizada, opinião pública em geral. Muitos dos antigos aliados de Jair Bolsonaro, por seu turno, não gostaram da decisão, e aqui surgem novos ruídos em torno do presidente.

Ao indicar Marques, Bolsonaro deu mais um passo no sentido de desconstruir a imagem criada desde antes da campanha sucessória. A “nova política”, o “anti establishment”, todo um discurso que conquistou boa parte do eleitorado em 2018 gradativamente perde espaço para o pragmatismo político. Inevitavelmente, os bolsonaristas “raiz”, cerca de 20% dos eleitores, torcem o nariz para a movimentação presidencial.

O pontapé inicial foi a aproximação entre governo e Centrão. De inimigo, o bloco suprapartidário passou a peça fundamental para as pretensões do Planalto. Não somente as agendas econômica e social, como as reformas e o combate à pandemia, mas também a sobrevivência política em um momento de turbulência, levaram Bolsonaro a recorrer a velhas lideranças. Pragmatismo em estado puro.

Outro momento importante foi o afastamento do então ministro da Justiça, Sérgio Moro, o símbolo maior da Lava Jato que encarnava o combate à corrupção. Sua saída (e a maneira como ela se deu) deixou claro que o presidente preocupa-se, acima de tudo, em defender interesses familiares. Novo sinal para os bolsonaristas.

Agora, a indicação do substituto do ministro Celso de Mello na Corte adiciona mais lenha a essa fogueira. De alguém “terrivelmente evangélico”, Bolsonaro optou por escolher uma pessoa com perfil mais moderado, que inclusive teve relações institucionais com o PT - ele foi nomeado para o Tribunal Regional Federal da 1° Região pela então presidente Dilma. Pecado mortal para os bolsonaristas, que de imediato reagiram via imprensa e redes sociais.

A cereja do bolo, porém, foi a imagem do abraço entre Bolsonaro e o presidente do STF, ministro Dias Toffoli. Para o bolsonarista mais fiel, isso representou a traição suprema. A grita foi geral.

É evidente que toda essa movimentação é milimetricamente calculada. Para o presidente, interessa manter um bom relacionamento com os mundos político e jurídico, mesmo ao custo de perder alguns apoiadores. Bolsonaro não deverá mudar esse curso.

PS: a informação de que o currículo de Marques conteria dados falsos sem dúvida alguma mancha sua indicação. Cabe lembrar que, recentemente, Carlos Decotelli deixou de assumir o ministério da Educação devido a controvérsias em torno de sua titulação acadêmica.

André Pereira César

Cientista Político

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