As eleições norte-americanas e o Brasil

Polarização inédita, votação recorde, riscos de confrontos físicos e armados entre republicanos e democratas, resultado imprevisível. Muito se fala sobre hoje, 3 de novembro de 2020, dia da eleição presidencial nos Estados Unidos. Para o Brasil, e para o governo Jair Bolsonaro, muito está em jogo. Afinal, quais as consequências para nosso país?

É evidente que uma eventual derrota do republicano Donald Trump representará um importante revés para a onda neopopulista em todo o planeta. Em termos práticos para o Brasil, no âmbito das relações bilaterais algumas mudanças poderão ocorrer, mesmo não sendo o governo Bolsonaro a primeira das prioridades dos norte-americanos. Nesse caso, não importa o vencedor.

Um aspecto importante diz respeito às relações diplomáticas entre os dois países. Caso Trump vença, Bolsonaro será tentado a manter a narrativa de “amizade” com o mandatário norte-americano e, em termos de relações institucionais, o alinhamento Brasília-Washington será reforçado. O êxito do republicano, porém, não mudará alguns aspectos da política ora em curso – os Estados Unidos continuarão a defender seus primeiros e próprios interesses e manterão no radar a possiblidade da imposição de medidas restritivas no comércio como um todo.

Além disso, a vitória de Trump fará aumentar as críticas do governo Bolsonaro com relação a organismos multilaterais, como a ONU, a OMS e a OMC. Nesse campo muito mais ideológico do que racional, ao seguir as diretrizes norte-americanas, o Brasil amplia o atual isolamento e se alinha a nações conservadoras do Oriente Médio e da África.

Em caso de vitória de Joe Biden, o Brasil sentirá dificuldades extras no relacionamento entre os dois países. Aqui falamos especialmente da questão ambiental, com foco na Amazônia, hoje objeto de fortes críticas por parte dos democratas (críticas essas que encontram eco entre os países europeus, diga-se). Nesse cenário, mais do que a retórica, o Brasil precisará mudar a ação, sob risco real de sofrer pesadas sanções econômicas e financeiras do novo governo.

Também questões hoje tidas como centrais no discurso bolsonarista, como as referentes a aborto e minorias, entre outras, precisarão ser reorientadas. Essa possível nova realidade, por sinal, poderá colocar em xeque figuras importantes dentro do chamado “núcleo ideológico” do governo brasileiro, como os ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Ricardo Salles (Meio Ambiente). No mínimo, eles terão reduzida a autonomia de ação.

No campo da política, a vitória de Trump certamente dará fôlego extra nas pretensões eleitorais de Bolsonaro para 2022. O discurso conservador deverá se intensificar e o grupo ideológico do governo, mesmo sendo o Centrão o atual e principal pilar de sustentação, ganhará papel de destaque na campanha à reeleição.

Sendo Biden o vencedor, Bolsonaro certamente terá que rever o seu posicionamento em questões hoje muito caras ao governo e aos seus apoiadores mais fervorosos. Certamente terá que baixar o tom. E o apoio norte-americano ao projeto de Bolsonaro à reeleição não será imediato e terá que ser negociado. Com isso, seus adversários poderão se aproveitar desse pequeno espaço para avançarem algumas casas. Como a história já demonstrou, o governo dos Estados Unidos age de forma pragmática, não importando quem esteja na cadeira da presidência da República para defesa de seus interesses.

Por fim, restará ao Planalto esperar a poeira baixar no Hemisfério Norte para se posicionar com relação ao governo, seja ele Trump ou Biden. Qualquer palavra ou ato impensado, agora, pode gerar danos ao Brasil, ainda mais quando se tem em mente a extrema polarização da campanha norte-americana. Será mais um importante teste para Bolsonaro e sua diplomacia, que até agora não têm sido bem sucedidos em termos de política externa.

André Pereira César
Cientista Político

Alvaro Maimoni
Consultor Jurídico

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