A política em maio

Passado o turbulento mês de abril, com a instalação da CPI da Covid no Senado Federal, o imbróglio no orçamento, cúpula do meio ambiente com severas críticas internacionais à política ambiental brasileira, suspeição de Sérgio Moro pelo STF e o avanço da pandemia, maio tem início com uma vasta agenda.

A CPI da Covid, é claro, terá grande destaque. As primeiras oitivas, a partir da terça-feira, 4 de maio, definirão os rumos das investigações. Os depoimentos dos ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM/MS), Nelson Teich e Eduardo Pazuello, além do atual titular da pasta, Marcelo Queiroga, deixarão claras as estratégias de governo e oposição quanto aos trabalhos do colegiado.

Cabe ressaltar aqui que a maioria oposicionista na CPI tentará explorar ao máximo as contradições do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) no combate à pandemia. O depoimento de Pazuello, em especial, poderá gerar danos significativos para o Planalto, que aparentemente não tem uma estratégia efetiva de defesa.

Em paralelo, o presidente da Câmara dos Deputados, deputado Arthur Lira (PP/AL), tenta descolar sua agenda do Senado. Prova disso é a tentativa de retomar os debates em torno da proposta de reforma tributária. No mesmo dia em que se iniciarão as audiências públicas na CPI, está prevista a apresentação do parecer do relator, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP/PB), sobre a matéria.

Ainda há muitas dúvidas quanto aos procedimentos para a votação da proposta, mas ela deverá ser fatiada. Como são três as propostas em discussão (PEC 45, PEC 110 e PL 3887, essa última do governo), não há também certeza alguma quanto ao conteúdo do parecer. No mesmo dia, está previsto um encontro do vice-presidente da Câmara, deputado Marcelo Ramos (PL/AM), com o grupo do Simplifica Já, que conta com apoio de cerca de 120 entidades ligadas ao setor de serviços e grandes municípios contrárias às propostas até aqui analisadas. De concreto, pode-se afirmar que a discussão está longe do fim.

No campo da sucessão presidencial, enquanto a chamada Frente Ampla Democrática busca um nome e um projeto único, o ex-presidente Lula (PT), de volta ao jogo, retorna a Brasília para conversas com lideranças políticas. Além de reuniões com partidos de esquerda, ele deverá se encontrar com o ex-presidente José Sarney, decano do MDB. O petista mostra disposição para negociar com o centro político, ocupando um espaço hoje órfão de representantes.

Por fim, o presidente Bolsonaro começa o mês na ofensiva, tentando recuperar ao menos parte da popularidade perdida desde a virada do ano. As manifestações a seu favor ocorridas no sábado, 1º de maio, e declarações nada amistosas contra a imprensa foram uma espécie de ensaio geral nesse sentido. Outro evento similar, previsto para o próximo dia 15 e promovido por setores ruralistas, será mais uma etapa dessa estratégia.

O titular do Planalto também poderá definir seu novo partido e o PRTB, agremiação do vice-presidente Hamilton Mourão, surge forte na bolsa de apostas.

O primeiro turno das eleições de 2022 ocorrerá no início de outubro - faltam exatos dezessete meses. A partir de agora, os movimentos no mundo político terão como foco único o processo eleitoral, com os principais atores buscando ocupar todo o espaço possível.

André Pereira César
Cientista Político

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