A ofensiva do Podemos

“E então, Podemos?”. Com essa frase, a presidente nacional do Podemos, a deputada paulista Renata Abreu, abordava seus pares nos corredores da Câmara, na tentativa de aumentar as fileiras da legenda. O partido hoje registra um crescimento significativo, e começa a incomodar outras agremiações.

Oriundo do PTN, o Podemos foi oficialmente criado no final de 2016. O nome foi inspirado na frase “yes, we can “, do ex-presidente americano Barack Obama. O partido é claramente de centro-direita e tem entre seus expoentes os senadores Álvaro Dias (PR), que chegou a disputar a sucessão presidencial em 2018, e Romário (RJ).

Em números, o crescimento do Podemos chama a atenção. No Senado Federal, a legenda contabiliza onze senadores, o que representa a segunda força da Casa - o MDB, a maior bancada, tem treze parlamentares.

Na Câmara o desempenho é mais modesto, mas é igualmente surpreendente. São dez os deputados, mas esse número deverá aumentar bastante muito em breve, dadas as negociações em curso.

Dois pontos são favoráveis ao crescimento do Podemos. Em primeiro lugar, a linha programática do partido encontra eco em boa parte da Câmara, que tem hoje um perfil mais à direita do espectro ideológico. Além disso, a agremiação pode se beneficiar da insatisfação de muitos deputados em seus partidos atuais. Falamos aqui mais especificamente do PSL, que está dividido e corre o risco de perder cerca de vinte parlamentares. O Podemos seria, nesse momento, a opção natural desse contingente.

Além disso, o comando do Podemos pode ter uma carta na manga. O senador Álvaro Dias teria sondado o ministro da Justiça, Sérgio Moro, sobre a possibilidade de seu ingresso no partido. Com prestígio junto a setores mais conservadores da opinião pública, o ministro certamente atrairia outros nomes para a legenda. No entanto, outros partidos disputam o “passe” de Moro. O PSDB, por exemplo, tenta abrir diálogo com o ministro, tendo como articulador o deputado João Roma (Republicanos/BA), muito ligado ao prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM/BA). Por sinal, essa negociação tem em mira uma possível fusão do PSDB com o DEM, com vistas às eleições de 2022.

Em sua ofensiva, porém, o Podemos corre um risco. Ao atrair parlamentares das mais diversas agremiações, o partido poderá perder organicidade e se transformar em um “balaio de gatos”. Algum filtro será necessário para se evitar esse quadro.

Enfim, quando muitos apostavam no PSL ou no Novo como as novidades na cena político-partidária nacional, o Podemos aparece como um surpreendente destaque. O partido parece responder a um movimento que cresce no Brasil, o surgimento de grupos políticos como o Cidadania, o Patriotas e o MBL, por exemplo. Enfim, o paulatino protagonismo do Podemos traz novos desafios para a agremiação - manter a unidade interna é a principal.

André Pereira César

Cientista Político

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