5017, e Daí?

“É muita notícia ruim. Eu sei que está acontecendo, mas vamos divulgar também notícias boas”. A frase, de autoria do ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, foi proferida à imprensa na última semana, justamente quando o então ministro da Justiça, Sérgio Moro, estava prestes a deixar o cargo.

Infelizmente, não há notícias boas no horizonte. Nem falamos aqui do quadro político, mas focamos na pandemia e suas consequências. No final da tarde de terça-feira, 28 de abril, foram divulgados números oficiais atualizados da Covid-19 no Brasil - nada menos que 474 mortos nas últimas 24 horas, totalizando 5.017 óbitos desde o início da pandemia no país. Nada a comemorar.

O Brasil ultrapassou a China em número de vítimas fatais. Nada mais simbólico. Em termos de combate à doença, a situação é caótica. Faltam leitos em UTIs, faltam respiradores, faltam materiais médicos, faltam vagas nos cemitérios. Profissionais da saúde atuam em condições precárias. O sistema está perto de colapsar - na verdade, já colapsou em cidades como Manaus e Fortaleza. As duas maiores metrópoles do país, São Paulo e Rio de Janeiro, além de Recife e São Luís, também vivem dias de cão, quase nos seus limites.

O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, em entrevista coletiva concedida no dia 28 de abril, após onze dias no cargo, afirmou que o aumento de casos constitui uma tendência e que vai continuar acompanhando para ver como vai ser a evolução. O que se assiste é mais retórica do que atos práticos.

E não é somente a saúde pública que sofre com a pandemia. No âmbito da economia, a inflação chegou à cesta básica. Alimentos como batata e leite tiveram altas expressivas em seus preços. Quem sente com maior intensidade, é claro, é a população mais pobre.

Ainda sobre economia, o ministro Paulo Guedes e sua equipe apresentaram meros (e tímidos) paliativos para enfrentar o quadro. A ajuda aos mais pobres, um grande contingente da população, é muito pequena para o drama vivido pelas famílias. Além disso, empresas estão fechando as portas e negócios estão sendo encerrados. O Brasil pós-pandemia enfrentará nova crise, que levará anos para ser debelada.

“E daí? Eu lamento. O que você quer que eu faça? Sou Messias, mas não faço milagres.” A frase de Jair Bolsonaro sintetiza o pouco caso do Planalto com a situação. A crise terá importantes consequências políticas. Caso o presidente da República não assuma de fato a liderança do processo de combate ao novo Coronavírus, ele acabará por ser duramente cobrado - pela história e pelo eleitorado. O tempo dirá.

André Pereira César

Cientista Político

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