10 de agosto em quatro movimentos

. Desfile militar - o aguardado desfile militar foi pífio. Equipamentos obsoletos e com sinais de manutenção precária foram expostos ao mundo. Com o evento, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pretendia dar uma demonstração de força, mas o efeito foi contrário. Pior, o isolamento do titular do Planalto ficou evidente. Os presidentes dos demais Poderes ignoraram o convite para comparecer ao ato e o vice-presidente, General Hamilton Mourão, também não deu as caras - ele qualificou o desfile como “inoportuno”. Também no Congresso Nacional a reação geral foi negativa.

Chamam a atenção, em especial, três reações ao ocorrido. Em primeiro lugar, pipocam notas na imprensa sobre a insatisfação de setores do oficialato com relação a Bolsonaro. Além disso, as redes sociais foram implacáveis nas críticas ao desfile, com uma profusão de memes remetendo ao “Exército de Brancaleone”. Por fim, a imprensa internacional chegou a falar em “República de bananas”. O prestígio do país atingiu seu ponto mais baixo em muitos anos.

. Voto impresso - principal tema da agenda política de Bolsonaro, a proposta que criava o voto impresso foi rejeitada pelo plenário da Câmara dos Deputados. O placar - 229 votos favoráveis e 218 contrários - chegou a surpreender, pois esperava-se larga vantagem dos defensores da manutenção do sistema atual, com urnas eletrônicas.

Chamou a atenção o comportamento do PSDB, cuja maior parte da bancada votou a favor do voto impresso. Esse comportamento dos deputados tucanos explica-se, em parte, pela atuação de Aécio Neves (MG), que têm operado nos bastidores em aliança com o presidente da Casa, Arthur Lira (PP/AL). No entanto, para um partido que pretende se apresentar como “terceira via” na sucessão presidencial, o alinhamento a Bolsonaro, mesmo que provisório, soa estranho.

Já o comandante da Câmara precisará juntar os cacos do processo de votação da matéria e reavaliar sua relação com o Planalto. Lira trabalhou pessoalmente na tentativa de angariar votos favoráveis à matéria. E muitos deputados ficaram insatisfeitos e reclamaram publicamente do fato de Lira remeter a proposta ao plenário mesmo depois de sua rejeição em comissão especial. A novela do voto impresso pode não ter sido definitivamente encerrada.

. Revogação da Lei de Segurança Nacional - o plenário do Senado Federal aprovou o projeto que revoga a Lei de Segurança Nacional (LSN), em vigor desde 1983 e tida por muitos como um “entulho autoritário”. A partir de agora, o Código Penal passará a ter uma parte destinada aos crimes contra o Estado Democrático de Direito. Entre esses crimes estão o de atentado à soberania, espionagem e comunicação enganosa em eleições.

O projeto será encaminhado a Bolsonaro para sanção. Espera-se que ele vete alguns dispositivos, como o que trata da comunicação enganosa em eleições. Confirmado isso, uma nova frente de conflito com o Parlamento deverá ser aberta, pois um eventual veto presidencial tem grandes chances de ser derrubado por deputados e senadores.

. Inflação - por fim, foi divulgado o IPCA de julho e os números são assustadores. A variação foi de 0,96%, a maior para o período desde 2002, e de 8,99% em doze meses, bastante acima da meta de 3,75%. Para piorar, os alimentos subiram 13,27% desde agosto do ano passado, afetando de maneira mais dramática a classe mais pobre de brasileiros.

Assim, espera-se que a taxa Selic, hoje em 5,25%, chegue a 7,25% até o final do ano. Com a expectativa da crise hídrica no horizonte e as incertezas com relação ao futuro da pandemia, o quadro econômico é no mínimo desconfortável.

Ps. A pergunta que não quer calar no momento é a seguinte: rejeitada a proposta do voto impresso, qual será o novo bode na sala do presidente Bolsonaro?

André Pereira César
Cientista Político

Colaboração: Alvaro Maimoni – Consultor Jurídico

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