Renovação? Que renovação? - Linha de Pensamento - Hold

Renovação? Que renovação?

Humberto Lucena, Nelson Carneiro, Jarbas Passarinho, Mauro Benevides, José Sarney, Antônio Carlos Magalhães, Jader Barbalho, Édison Lobão, Ramez Tebet, Renan Calheiros, Tião Viana, Garibaldi Alves, Marina Silva, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, José Serra, Teotônio Vilela Filho, Jefferson Peres, Bernardo Cabral, Josaphat Marinho, Lauro Campos, Gerson Camata, Élcio Álvares, Íris Rezende, Epitácio Cafeteira, Francelino Pereira, Júlio Campos, Ronaldo Cunha Lima, Marco Maciel, Roberto Freire, Carlos Wilson, Osmar Dias, Álvaro Dias, Roberto Requião, Artur da Távola, Darcy Ribeiro, Abdias Nascimento, Fernando Bezerra, José Agripino, Romero Jucá, José Fogaça, Pedro Simon, Albano Franco, José Eduardo Dutra, Antônio Carlos Valadares, Eduardo Suplicy, Romeu Tuma, Heloísa Helena, Paulo Souto, Paulo Hartung, Maguito Vilela, José Alencar, José Jorge, Hélio Costa, Hugo Napoleão, Roberto Saturnino, Amir Lando, Mozarildo Cavalcanti, Vilson Kleinubing, Eduardo Siqueira Campos, João Capiberibe, Tasso Jereissati, Lúcio Alcântara, Cristovam Buarque, Roseana Sarney, Eduardo Azeredo, José Maranhão, Sérgio Guerra, Valdir Raupp, Paulo Paim, Jorge Bornhausen, Aloizio Mercadante, Francisco Dornelles, Jarbas Vasconcelos, Itamar Franco, César Borges, Renato Casagrande, Aloysio Nunes.

Goste-se ou não de cada um desses nomes, eles representam uma era no Congresso Nacional que não retornará mais. Da esquerda à direita, passando pelo centro, todos esses senadores praticaram a política real e o bom debate. Hoje, o que se vê é uma terra arrasada. Discussões pobres, violentas, jogo para a plateia, um verdadeiro TikTok parlamentar. Tanto o Senado Federal quanto a Câmara dos Deputados vivem um momento de baixa, que tende a se perpetuar.

“Se você acha esse Congresso ruim, espere até o próximo”. A célebre frase de Ulysses Guimarães, em resposta a um jornalista, tornou-se um misto de profecia e maldição. A cada legislatura que passa, a qualidade do trabalho dos parlamentares cai significativamente. Hoje, passado um quarto do século XXI, o cenário é desolador.

Os debates nas Comissões não se restringem mais ao campo da política, a defesa de ideias. Age-se com o “fígado”, com ataques à pessoa do parlamentar e à sua família, com o intuito de desestabilizar o adversário, que passou a ser o inimigo. O intuito, é “lacrar” nas redes sociais, aumentar seguidores e garantir mais engajamento. Não há preocupação com o uso da “farda”, com o respeito à liturgia e ao regimento. Os debates, hoje, são pautados pela ofensa e agressão. O oponente deve ser abatido a qualquer custo.

Nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso e nos dois primeiros mandatos de Lula a oposição, em sua grande maioria, foi qualificada e respeitou as regras do jogo. Parlamentares não se tratavam como inimigos, mas como adversários no campo da política. Acabados os debates iam, aos montes, não importando o partido, confraternizar em restaurantes e eventos pela capital federal. Saudades quando imperava a civilidade.

Voltemos no tempo. Em momentos de crise e grande tensão, deputados e senadores mantiveram a linha, ou seja, jogavam dentro das quatro linhas, passando ao largo de qualquer tipo de altercação. Agressões físicas e verbais eram esporádicas. Assim foi, por exemplo, no histórico duelo verbal em plenário entre ACM e Jader Barbalho, em 2000, quando o paraense chegou a dizer ao baiano para “ouvir caladinho” o que ele tinha a dizer.

Anos mais tarde, no início da crise do Mensalão, o embate entre Roberto Jefferson e José Dirceu rendeu a antológica frase “vossa excelência desperta em mim os instintos mais primitivos”, gerou a cassação dos mandatos de ambos, mas não mais que isso. Os dois políticos e seus aliados e apoiadores jamais partiram para a violência, tanto física quanto verbal.

Mesmo a CPI Mista dos Correios, que teve origem no Mensalão, foi politicamente contida, inclusive com a atuação do PSDB, Fernando Henrique Cardoso à frente, que trabalhou para evitar o impeachment do presidente Lula (PT).

Reforçando, hoje, a polarização (calcificação) mudou de maneira radical o cenário. O chamado bom debate deixou o palco e, em seu lugar, ganhou espaço o grito, o urro, o desejo de “lacrar” nas redes sociais. Ecoando Ulysses, a atual legislatura é marcada por violência verbal e física, semana após semana. Em nome da “liberdade de expressão”, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP/AL), afirma publicamente que nada pode fazer.

Na quarta-feira, 5 de junho, a sessão do Conselho de Ética da Câmara registrou momentos de balbúrdia, desrespeito e quebra de decoro. Simultaneamente, na Comissão de Direitos Humanos da Casa, a deputada Luiza Erundina (PSOL/SP), decana parlamentar, passou mal durante discussão e foi internada em uma UTI. Situações tristes e lamentáveis.

É corrente a avaliação de que, na política, a renovação de quadros é salutar. Não é bem assim. Qualquer pessoa que ingresse na vida pública precisa seguir regras claras, visando o bem coletivo e abrindo espaço para o contraditório. A liturgia sempre se faz necessária - falta a muitos parlamentares, tanto na Câmara quanto no Senado, essa consciência. O passado é a melhor escola.

André Pereira César

Cientista Político

Colaboração: Alvaro Maimoni - Consultor Jurídico

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