Reflexões iniciais sobre a sucessão paulistana

Tida como a “jóia da Coroa”, a capital paulista é estratégica para o xadrez político nacional e, por isso, objeto do desejo de todos. Quem a comanda tem, em tese, uma peça-chave na disputa presidencial. Dadas as incertezas geradas pelo governo Bolsonaro, as eleições de novembro terão ainda mais importância.

Da esquerda à direita, são muitos os pré-candidatos, o que deve conferir um caráter de grande competitividade ao processo. Por ora, tudo está em aberto - e a pandemia, que provocou a alteração no calendário eleitoral, apenas reforçou esse quadro.

Na esquerda, um empolgado PSOL virá com a chapa Guilherme Boulos-Luiza Erundina. O peso político de um ex-candidato a presidente e de uma ex-prefeita não é desprezível, apesar das limitações da legenda - o PSOL, que ganhou muito espaço no pleito de 2018, ainda é considerado pequeno em relação ao PT, o maior partido da esquerda. De todo modo, não será de espantar se Boulos dispute uma vaga no segundo turno. Cabe lembrar que parcela do petismo vê com simpatia Boulos, muito por sua proximidade com o ex-presidente Lula.

Por falar em PT, a agremiação, que já governou a cidade em três ocasiões a partir de 1989 com Luiza Erundina, luta para recuperar seu peso político na região. Divididos internamente, os petistas pretendem lançar o ex-deputado estadual e federal Jilmar Tatto, que também já foi secretário municipal de Transportes. Ligado à ex-prefeita Marta Suplicy, Tatto não une a legenda e, por conta disso, há pressão de setores do partido para que Fernando Haddad o substitua. Para piorar, o pré-candidato aparece atrás nas poucas pesquisas disponíveis.

Ainda na esquerda, o PSB pode disputar com o ex-governador Márcio França. Derrotado no segundo turno de 2018 para o tucano João Dória na sucessão estadual, seu grupo político enxerga dois ativos - o recall eleitoral e sua capacidade de atrair o eleitor que não vota na esquerda mas também não se identifica com o bolsonarismo. Enfim, trata-se de um nome que não pode ser descartado.

O prefeito Bruno Covas traz consigo o peso e a tradição do PSDB na capital. Mais ainda, o apoio do governador João Dória, que joga suas fichas na disputa visando a sucessão presidencial de 2022, conta muito. Inicialmente pouco conhecido da população, Covas ganhou visibilidade a partir da eclosão da pandemia. Agora, resta saber quem será o vice na chapa - o nome da ex-prefeita Marta Suplicy, hoje no MDB, aparece na bolsa de apostas. Importante ressaltar que o quadro de saúde do atual prefeito torna seu número dois especialmente importante.

Na direita, o ex-tucano Andrea Matarazzo é a aposta de momento do PSD de Gilberto Kassab. Rompido com o PSDB desde 2016, ele adotou um discurso radicalmente contrário ao do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de quem foi íntimo. Pouco conhecido da população e com reduzido carisma, ele precisará muito da presença de Kassab ao longo de sua campanha.

Também o Novo participará do jogo. O candidato do partido, já definido, será Filipe Sabará, “cria” política de Dória e seu ex-secretário municipal de Assistência e Desenvolvimento Social. Sabará terá o mesmo discurso de sua legenda nas eleições de 2018, propondo renovação política com menos Estado. Ele apostará ainda no apoio do eleitor bolsonarista.

Por fim, a grande incógnita será o candidato ser apoiado de fato pelo presidente Jair Bolsonaro. Sem partido e vendo inviabilizado seu projeto de criação do Aliança pelo Brasil, o titular do Planalto mantém, até o momento, reservas sobre seu posicionamento na capital.

O cenário, como se vê, está pulverizado. Além dos possíveis nomes apresentados acima, lutam ainda por uma vaga no grid a deputada federal Joice Hasselmann (PSL), o deputado estadual Mamãe Falei (Patriotas) e o eterno “coelho” Celso Russomanno (Republicanos). Pré-candidaturas em excesso para poucas faixas de corrida. Até o primeiro turno um afunilamento será inevitável.

André Pereira César

Cientista Político

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