Reflexões iniciais sobre a sucessão no Rio de Janeiro

Assim como São Paulo, a capital fluminense é peça fundamental no xadrez político nacional e o resultado do pleito do final do ano terá reflexos na sucessão presidencial de 2022. Com muitos pré-candidatos dispostos a entrar no jogo, a disputa está em aberto.

O pano de fundo das eleições de novembro é a caótica gestão do atual prefeito, Marcelo Crivella (Republicanos). Despreparado, desde a posse ele focou suas ações em favor de poucos grupos aliados, como os evangélicos, em detrimento de amplos setores da sociedade. Para piorar, a pandemia afetou duramente o Rio de Janeiro, ressaltando ainda mais a imperícia do prefeito. O resultado está nas pesquisas -uma das piores avaliações populares entre os comandantes das capitais. Em tese, seu único ativo é a proximidade com o presidente Jair Bolsonaro, que tem interesse direto nesse pleito.

O apoio de Bolsonaro a Crivella não está totalmente garantido porque outros postulantes pleiteiam ter o presidente a seu lado. Um deles é o polêmico deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL), que na campanha de 2018 protagonizou a infame cena da quebra de uma placa com o nome da vereadora Marielle Franco (PSOL), morta naquele ano. Amorim é alinhado com o núcleo ideológico do bolsonarismo.

Ainda no campo da centro-direita, o Novo deverá lançar o engenheiro Fred Luz. Ligado ao Flamengo, do qual foi diretor de marketing, o pré-candidato pretende usar a imagem de sucesso do clube na campanha. Próximo a João Amoêdo, tem discurso similar ao do ex-candidato a presidente em 2018 - menos Estado e maior eficiência administrativa.

Ao centro, surge o nome do ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), apontado como um dos favoritos. Ele teve uma gestão bem aprovada pela população e, além disso, não foi atingido pelo processo que engolfou nomes como o dos ex-governadores Sérgio Cabral e Pezão e do ex-deputado Eduardo Cunha, todos do MDB, mesmo partido de Paes à época.

O PSDB tem no empresário Paulo Marinho seu pré-candidato. Suplente do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos), com quem está rompido, ele foi nome muito importante na vitoriosa campanha presidencial de 2018 - e tem hoje no presidente Bolsonaro um de seus maiores desafetos. Cabe lembrar que, inicialmente, a vaga tucana seria do ex-ministro Gustavo Bebianno, igualmente desafeto do titular do Planalto, falecido no início do ano.

Também no campo do centro surgem os nomes dos deputados Hugo Leal (PSD), Clarissa Garotinho (PROS) e Marcelo Calero (Cidadania), além de Cristiane Brasil (PTB). Confirmadas essas candidaturas, tendem a ser figurantes no processo, que servirão apenas para barganhar apoios políticos num eventual segundo turno.

À esquerda, falava-se no deputado Marcelo Freixo como potencial candidato pelo PSOL. Com eleitorado cativo na cidade, o parlamentar, no entanto, tende a não entrar na disputa. Hoje, o nome mais cotado é o da deputada estadual Renata Souza, jornalista e comunicadora popular, ligada à defesa dos direitos humanos. Uma aposta de seu partido, que cresce em todo o país, para o pleito.

Já o PT deve optar por um nome bastante conhecido da população, a ex-governadora, ex-senadora e atual deputada Benedita da Silva. Com forte penetração nas comunidades do Rio de Janeiro, ela tem contra si um elevado índice de rejeição entre o eleitorado médio e o fato de seu partido ser refratário a alianças com outras agremiações.

Como se vê, são muitos nomes, poucos com reais condições de se mostrarem competitivos na disputa. A capital fluminense é uma cidade difícil de administrar e, além dos problemas da metrópole, tem a enfrentar as questões relativas ao tráfico e às milícias, isso sem falar na pandemia e seus efeitos econômicos e sociais. Desafios de monta para o próximo prefeito.

André Pereira César

Cientista Político

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