Sobre a escalada autoritária

Meses atrás, nesse mesmo espaço, comentamos que o realinhamento do Brasil com os Estados Unidos em detrimento de outros mercados consumidores, colocado em prática pelo governo Bolsonaro, indicava que mais do que uma simples preferência, tratava-se de um verdadeiro viés autoritário e ideológico implantado pelo Planalto. Nas últimas semanas esse quadro se agudizou, com uma série de eventos nesse sentido.

As declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre o AI-5 incomodaram a muitos. Não foi, porém, o único exemplo. O rompimento, levado a cabo pelo governo de Jair Bolsonaro, com alguns órgãos da imprensa foi mais um passo em direção ao autoritarismo. O ato de um deputado bolsonarista, que quebrou uma placa de uma exposição sobre o racismo no país, mostra, igualmente, o estado de espírito reinante. Por fim, a morte de nove pessoas durante ação policial em São Paulo assusta pela truculência da operação.

Para completar, a reaproximação com os norte-americanos não está gerando os resultados desejados pelo Planalto. Ao contrário, o governo americano não cumpriu a promessa de indicar o Brasil à OCDE e manteve o veto à carne bovina in natura brasileira após a desastrosa "Operação Carne Fraca", da Polícia Federal. Agora o anúncio do presidente Donald Trump de taxar o aço e o alumínio brasileiros reforça a máxima das relações internacionais: os países não têm amizades, mas sim interesses. A medida, caso confirmada, terá forte impacto junto aos produtores brasileiros e na, ainda, cambaleante economia do país.

Por falar em economia, em nota pública divulgada no último dia 28 de novembro, o GIFE – Grupo de Institutos Fundações e Empresas, que é composto pelos mais diversos setores do mundo produtivo brasileiro - demonstrou preocupação com o viés autoritário do presidente Bolsonaro e de membros dos primeiros escalões da atual administração e com seus consequentes desdobramentos para a economia. Importante ressaltar que boa parte desse grupo apoiou a eleição do titular do Planalto.

Em 1991, o presidente dos Estados Unidos, George Bush, venceu a Guerra do Golfo e resgatou a autoestima dos americanos após a dolorosa derrota no Vietnã. Assim, era o favorito absoluto nas eleições de 1992 ao enfrentar o até então desconhecido governador de Arkansas, Bill Clinton. O marqueteiro de Clinton, James Carville, apostou que Bush não era invencível com o país em recessão e cunhou a frase que ficou mundialmente famosa: “É a economia, estúpido!”

Voltando para terras tupiniquins, a senadora Simone Tebet (MDB/MS) resumiu com perfeição o atual cenário ao afirmar que se a economia não reagir, o governo não se sustenta.

Em resumo, a escalada autoritária parece estar tirando o foco do principal, a geração de empregos e renda. O país está no rumo errado.

André Pereira César

Cientista Político

Alvaro Maimoni

Consultor Jurídico

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