Governo Bolsonaro – Privatização, privatizações

Nos últimos dias, os movimentos erráticos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) alimentaram as incertezas com relação aos rumos da economia. Hoje em viés de baixa, o ministro da Economia, Paulo Guedes, é uma voz praticamente isolada no primeiro escalão quando se trata da defesa dos preceitos liberais. Afinal, há realmente vontade política no Planalto para o avanço das privatizações?

As dúvidas ganharam força com a intervenção do presidente na Petrobras. Ali ficou claro que o perfil estatista de Bolsonaro, conhecido desde seus tempos de deputado, continuava firme e forte. Não bastasse a ação sobre a petroleira, o titular do Planalto ameaçou interferir no setor elétrico. A fração mais fiel de seu eleitorado aplaudiu, enquanto o mercado revisava seu apoio ao governo.

Ciente do estrago que havia patrocinado, Bolsonaro recuou - em dois dias apresentou uma medida provisória e um projeto de lei tratando da desestatização de duas empresas símbolo do país, Eletrobrás e Correios. Nem mesmo isso foi capaz de reduzir as desconfianças por parte dos investidores.

As resistências à venda das duas estatais são mais que conhecidas, e vão além do Planalto. Por mais que o Congresso Nacional tenha hoje uma tendência reformista, a aprovação das propostas não será fácil. Historicamente, tanto a Eletrobrás quanto os Correios são, de maneira legítima e desde sempre, instrumentos de negociação entre os partidos.

O caso da Eletrobrás é o mais delicado. Políticos das regiões Norte e Nordeste, e também de Minas Gerais, têm na empresa um importante ativo político. Esse quadro é ainda mais forte no Senado Federal, o principal foco de resistência à privatização.

O fato é que Bolsonaro tende a colher dividendos, independentemente do resultado final do processo. Em caso de aprovação das propostas, ele reduzirá significativamente a desconfiança do mercado e dirá ao seu eleitor ser esta a melhor solução para o país. “Bolsonaro vence de novo”. Rejeitadas as medidas, ele poderá dizer que fez sua parte e os parlamentares são soberanos em suas decisões. “A culpa é desse Congresso aí”. O jogo está jogado.

André Pereira César

Cientista Político

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