Economia na berlinda

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) assumiu em definitivo seu projeto eleitoral. As recentes decisões envolvendo a Petrobras e a sinalização que o setor elétrico também será alvo de intervenção do governo indicam que o Planalto rompeu de vez com as propostas liberais anunciadas durante a campanha de 2018. Para quem acompanha a carreira política de Bolsonaro, nenhuma surpresa, ao contrário, já era esperado.

Aos fatos. Em função da metodologia adotada pela Petrobras, os preços da gasolina e do óleo diesel subiram significativamente nos últimos tempos, gerando ruídos entre a população e, especialmente, entre os caminhoneiros, grupo que sempre deu suporte político a Bolsonaro. O afastamento do presidente da estatal, Roberto Castello Branco, e sua substituição pelo general Silva e Luna, agradou de imediato ao núcleo duro dos apoiadores do titular do Planalto, mas a um custo elevado. O mercado não compra mais as ideias populistas do governo.

Por sua vez, o titular da Economia, Paulo Guedes, perde de vez a condição de superministro. O “Posto Ipiranga”, ao fim, torna-se uma pálida sombra do que foi durante a campanha e em parte da primeira metade da administração Bolsonaro. Nas palavras de um ex-integrante do governo, o ministro tem como principal atributo uma grande resiliência, e nada mais. Em resumo, o processo de fritura é similar ao ocorrido com o então ministro da Justiça, Sérgio Moro.

Além da Petrobras, Bolsonaro afirmou que deverá “meter o dedo na energia elétrica” muito em breve. Ele insinuou existir uma caixa-preta no setor elétrico e, dado o histórico recente, uma intervenção mais uma vez não surpreenderá a ninguém. Cabe lembrar aqui que o ministro de Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, é amigo pessoal do presidente - difícil imaginar seu afastamento, ao menos por ora. Assim, os movimentos do Planalto no setor ainda são desconhecidos.

Todo esse imbróglio ocorre justamente no momento em que a pandemia ganha força, o deputado Daniel Silveira (PSL/RJ), símbolo maior do bolsonarismo no Congresso Nacional, é preso e os parlamentares anunciam que serão rigorosos na votação da Lei Orçamentária de 2021. Para o presidente, um combo de notícias ruins.

O governo se afasta paulatinamente do mercado que, sem ilusões, já busca alternativas para as eleições de 2022. Objeto de atenção especial do presidente e de seu entorno, as próximas pesquisas de opinião pública serão cruciais para os atos futuros do governo. Mantida a tendência de queda registrada desde o início do ano, o Planalto deverá aprofundar sua política intervencionista, para reforçar ainda mais os laços com seus seguidores.

O cálculo é claro - o governo acredita que, com 25% dos votos, Bolsonaro chega ao segundo turno, com grandes chances de enfrentar um candidato de esquerda na rodada final. Nesse caso, essa polarização levaria naturalmente à recondução do atual presidente. Uma aposta simples, mas de altíssimo risco para Bolsonaro.

André Pereira César
Cientista Político

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