Riscos no horizonte do governo

 

Personalidade do presidente: as idas e vindas de Jair Bolsonaro e o escasso conhecimento sobre diversas questões centrais do governo têm incomodado muitos assessores graduados. Segundo interlocutores do presidente, ele muda de opinião sobre temas relevantes a depender com quem está conversando. A notória insegurança acerca de determinados temas acaba contaminando o ambiente junto aos integrantes do governo e tem o condão de repercutir negativamente tanto dentro quanto fora do país.

Divisões no governo: extensa matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo no último domingo, 20 de janeiro, mapeia os grupos que integram o governo. Eles são seis - evangélicos, lavajatistas, liberais, militares, olavistas e políticos -, sem falar no núcleo familiar. Em diversos momentos, falam línguas diferentes.

Desse ponto de vista, o principal desafio para o presidente Bolsonaro é conciliar a agenda econômica liberal com a pauta de valores conservadores. Há o risco real de que uma contamine a outra, dificultando ainda mais a aprovação das matérias. Também a disputa por espaço dentro do governo requer atenção especial do Planalto.

Divisão no PSL: o partido de Bolsonaro parece não ter assimilado ainda a chegada à "maturidade" no mundo político. De nanico, o PSL tem agora a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, mas não consegue conter as disputas internas.

Depois da briga pública entre os deputados paulistas Eduardo Bolsonaro e Joice Hasselmann em torno dos postos de relevo que o partido ocupará no Congresso Nacional, a viagem de uma comitiva à China rachou de vez a legenda. Trocas de farpas e ameaças de processos judiciais expuseram em definitivo as dificuldades que o PSL enfrentará no Legislativo. Não há unidade, e a inexperiência da imensa maioria da bancada pode minar as pretensões dos aliados de Bolsonaro, gerando problemas adicionais para a agenda do presidente.

Sucessão no Congresso: o governo pisa em ovos quando se trata da escolha dos presidentes e dos demais cargos nas Mesas e nas comissões da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. A ordem é não gerar marola.

O objetivo do Planalto é ter na presidência das duas Casas parlamentares simpáticos à agenda econômica. Mais ainda, será necessário acomodar de maneira equilibrada os aliados nos demais postos. Pretende-se evitar a qualquer custo um "cenário Severino Cavalcanti" - em 2005, o então deputado pernambucano, egresso do chamado "baixo clero", derrotou as forças governistas e assumiu a presidência da Câmara, dando início a um período de forte turbulência política tanto no Legislativo quanto no Executivo.

Reforma da Previdência: o texto da reforma da Previdência ainda não foi concluído pela equipe econômica. Mesmo assim, a polêmica já está instalada e o debate pode trazer consequências negativas para o Planalto.

Hoje, os militares estão no centro da discussão. Eles defendem publicamente que fiquem de fora da reforma, o que desagrada ao time de Paulo Guedes e também incomoda o mercado. Há grande possibilidade da eclosão de um embate dentro do governo e no Congresso Nacional.

Fórum de Davos: a pequena cidade suíça de Davos, cenário do magistral "A montanha mágica", clássico de Thomas Mann, será o palco da primeira viagem internacional de Bolsonaro. Na próxima terça-feira, 22 de janeiro, o presidente falará por cerca de 45 minutos a investidores e representantes de governos de todo o planeta. A expectativa é grande, pois o chefe de Estado brasileiro é dos mais aguardados no Fórum Econômico Mundial.

Eventuais equívocos ou tropeços de Bolsonaro em Davos podem trazer danos para a imagem do país. Ele falará em especial sobre as reformas estruturantes e a privatização de estatais, mas certamente será arguido sobre questões ambientais e política migratória. Por conta dos riscos embutidos, o presidente está sendo blindado por seus assessores mais graduados e até mesmo uma entrevista coletiva anteriormente agendada foi cancelada.

Affair Queiroz/Flávio Bolsonaro: o principal risco para o governo, hoje, é a questão envolvendo as movimentações financeiras atípicas de Fabrício Queiroz, ex-funcionário do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL/RJ). Nos últimos dias, o surgimento de novas informações apenas agravou o quadro.

O Planalto está preocupado com a possibilidade de que o caso atinja o presidente. Por conta disso, a ordem é blindar Bolsonaro. Pode ser tarde. A situação, que se arrasta há semanas, parece ter saído do controle dos envolvidos. Para um governo que tem entre suas principais bandeiras a defesa da ética e o combate à corrupção, o caso não poderia ser mais desconfortável.

Considerações finais: passadas apenas três semanas da posse, o governo Bolsonaro já enfrenta problemas que necessitam de pronta resposta. A lua de mel com o eleitorado e com o mercado ainda continuam, mas é preciso aparar as diversas arestas que tem gerado ruídos desnecessários e perigosos para a chamada governabilidade.

 André Pereira César

Cientista Político

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