Olavo de Carvalho e o governo

Olavo de Carvalho e o governo

Como se sabe, o governo Bolsonaro é composto por diferentes grupos, com posicionamentos e interesses distintos. Uma dessas correntes é a que segue as ideias do polêmico ex-astrólogo e filósofo Olavo de Carvalho.

Mesmo à distância (mora nos Estados Unidos), Carvalho emplacou dois nomes no primeiro escalão do governo, os ministros da Educação, Ricardo Velez Rodriguez, e das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Ao todo, entre chefes de pastas e secretários, contabilizam-se doze olavistas. Um contingente nada desprezível.

Mas não é só. Parcela significativa da bancada do PSL, partido de Bolsonaro, também bebe na fonte de Carvalho. Eduardo Bolsonaro (PSL/SP), por sinal, é bastante próximo do filósofo.

Esse grupo exerce grande influência e pretende ditar boa parte da agenda da gestão Bolsonaro. E o que pensam Carvalho e seus seguidores? Em linhas gerais, há uma dura crítica ao que eles chamam de "marxismo cultural" - por essa ótica, a esquerda, nos últimos anos, teria dominado a universidade, a mídia, a cultura e a política do país, e teria chegado o momento de se reverter isso. Criticam ainda os partidos políticos tradicionais, que não representariam a população brasileira.

O posicionamento acima explica, por exemplo, a mudança de eixo da política externa, que tenta se reaproximar dos Estados Unidos. Também a política educacional sente os efeitos do olavismo - a Escola sem Partido é um inequívoco exemplo disso.

É de se destacar que essa linha de pensamento encontrou eco na maioria dos eleitores brasileiros, tanto que elegeram candidatos alinhados com esse discurso e foram responsáveis pela vitória, nas urnas, de muitos estreantes na política. Com isso, o PSL saiu de partido “nanico” para a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, com 52 parlamentares.

Há ainda uma clara similaridade entre a agenda dos olavistas e dos evangélicos, outro grupo de peso no atual governo. Ambos demonstram interesse em questões de costumes e educacionais, sempre com viés conservador.

Apesar de toda a influência, há atritos entre Carvalho e o bolsonarismo. A recente viagem de deputados do PSL à China foi duramente atacada pelo ideólogo e parcela de seus apoiadores. A questão tornou-se pública e ainda não foi solucionada, tanto que entre os que viajaram, correm explícitas ameaças de retaliação na eleição da Câmara, de não entregarem votos ao atual presidente Rodrigo Maia (DEM/RJ).

Com a posse do Congresso Nacional, nos próximos dias, o olavismo enfrentará novos testes. Não se sabe se a agenda defendida pelo grupo, ou ao menos parcela dela, terá o aval dos parlamentares. Nem como se dará a interlocução entre os olavistas do Executivo e os deputados e senadores.

André Pereira César
Cientista Político

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