Novos rostos, novas práticas?

Letícia Catelani

Fala-se bastante a respeito da renovação no Congresso Nacional. De fato, muitos parlamentares novos assumirão no início de fevereiro. A profusão de rostos novos, no entanto, não se resume ao Legislativo. No Executivo também se vê o surgimento de novatos, muitos deles em postos importantes da gestão Bolsonaro.

Esse grupo tem algumas características em comum. Em geral são jovens (na faixa dos 30/40 anos de idade) e sem experiência prévia na política ou na administração pública. A maioria se aproximou de Bolsonaro ainda antes do início da campanha, e teve participação ativa no processo de construção da candidatura vencedora. Liberais na economia e conservadores nos costumes, são duros críticos daquilo que consideram a "hegemonia" da esquerda nos últimos vinte anos no Brasil. Pode-se dizer que a nova direita mostrou sua cara.

Por falar em críticas aos grupos de esquerda, o tom e a forma revelam outra característica em comum - eles têm como referência em política o polêmico Olavo de Carvalho, ex-astrólogo que enveredou pela filosofia e é, hoje, uma espécie de guru de Bolsonaro e seus filhos. Carvalho, é importante lembrar, é corresponsável pelas nomeações de Ernesto Araújo (Itamaraty) e Ricardo Vélez Rodriguez (Educação).

Para ilustrar o que foi dito acima, selecionamos alguns expoentes desse grupo. Falemos a respeito deles.

Formado em Relações Internacionais em 2015, Filipe Martins tornou-se conselheiro pessoal de Bolsonaro. Sua posição hoje é similar à de Marco Aurélio Garcia, que foi por anos assessor especial de Lula. Assumidamente conservador, é bastante ligado ao deputado Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) e ao vereador Carlos Bolsonaro (PSL/RJ). Discípulo de Olavo de Carvalho, já trabalhou no departamento econômico da embaixada dos Estados Unidos.

Martins é bastante conhecido entre os grupos de direita que atuam na internet, mas fora deles ainda tem pouca visibilidade. Tem muitos desafetos, que o consideram apenas um "militante de Facebook". Ao acertar boa parte dos resultados das eleições norte-americanas de 2016, ganhou prestígio entre os bolsonaristas.

Igualmente relevante para o grupo é Letícia Catelani, ou Letícia Catel. Empresária, apresenta-se como "especialista em mercados internacionais e negociações comerciais". Poliglota, atuou fortemente nas redes sociais em defesa da candidatura Bolsonaro. Polêmica, já se desentendeu com o senador eleito Major Olímpio (PSL/SP) e com o secretário-geral da legenda, Gustavo Bebiano. Por outro lado, é bastante próxima de Eduardo Bolsonaro.

A exemplo de Martins, é favorável à abertura da economia. Ao mesmo tempo, milita em prol da liberação das armas. No governo Bolsonaro, assumiu o cargo de diretora-executiva da Agência de Promoção de Exportações do Brasil (Apex). Logo após assumir, envolveu-se no imbróglio resultante da demissão do então presidente do órgão, Alex Carreiro.

Outros dois expoentes dessa nova direita são o investidor Otávio Fakhoury e o advogado Victor Metta. Ao lado de Catel, a atuação dos dois foi fundamental para o êxito da campanha de Bolsonaro. Eles foram responsáveis por aglutinar outros jovens apoiadores do então candidato, em especial da região Nordeste, e se utilizaram de maneira eficaz das redes sociais. Neófitos, a princípio não assumirão cargos no governo, mas deverão manter acesa a jovem militância que trabalhou a favor do presidente Bolsonaro.

Enfim, esse é o novo rosto da direita brasileira. É altamente provável que, ao longo da gestão Bolsonaro, eles venham a se tornar protagonistas da cena política - para o bem ou para o mal. Outros atores com perfil similar provavelmente deverão surgir nesse cenário nos próximos meses. A grande dúvida é se, mesmo defendendo novas práticas no trato com a coisa pública, eles não incorrerão em velhos vícios. O tempo dirá.

 

André Pereira César
Cientista Político

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