Construindo uma base aliada

Cantado em verso e prosa por Bolsonaro e seus aliados, o discurso da "velha política" versus "nova política" começa a perder força. Necessitando de apoio para fazer avançar sua agenda no Congresso Nacional, o Planalto chamou parte do establishment político para a negociação.

É necessário ressaltar que, no modelo de coalizão brasileiro, essas negociações são fundamentais para o sucesso do governo de plantão e que são realizadas, em geral, de forma republicana e dentro da legalidade. Collor caiu, em larga medida, por ter uma base nanica. Dilma abandonou seus aliados e, sozinha, pouco teve o que fazer. Por outro lado, Fernando Henrique e Lula mantiveram alianças sólidas, que não só os blindaram contra possíveis processos de afastamento como contribuíram fortemente para o avanço de suas agendas.

Agora, Bolsonaro se vê diante dessa realidade. As conversas já começaram e, a princípio, podem trazer frutos para o Planalto. O PSDB do ainda presidente Geraldo Alckmin condiciona alguns pontos da reforma da Previdência, enquanto o PSD de Gilberto Kassab fala em não conceder apoio incondicional. Isso importa de menos. O fato é que uma janela, ainda que pequena, foi aberta.

Ao que tudo o indica, serão criados conselhos políticos para a negociação com os partidos. Deles deverão participar os presidentes das agremiações e as lideranças parlamentares. Se confirmado, será um bom começo para o estabelecimento de um diálogo em torno da agenda nacional.

De tudo isso, surgem algumas questões. Em primeiro lugar, caso a base aliada seja efetivamente criada, ela visará apenas a reforma da Previdência ou terá foco também em outros temas do governo? Garantirá ela um mínimo de governabilidade?

Além disso, há a questão do eleitorado de Bolsonaro. Aceitará esse contingente expressivo da sociedade a aproximação do presidente com o que ele chamou de "velha política", e que foi tão criticada por ele?

O Planalto, aos poucos, vai entendo a realidade da política, apesar dos mais de vinte e oito anos de política do presidente. O modelo brasileiro dá pouca margem para alternativas, e o fechamento ao diálogo com os partidos não é uma delas. Resta saber se o Planalto conseguirá avançar nas negociações e, assim, retomar certa normalidade no dia a dia da política brasileira.

André Pereira César
Cientista Político

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